Construção sustentável | Téchne

Entrevista

Construção sustentável

Reportagem de Bruno Loturco
Edição 108 - Março/2006




VANDERLEY JOHN

Formado em 1982 pela Unisinos, Vanderley John é mestre em engenharia civil pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e doutor em engenharia civil e livre-docente pela Poli-USP (Escola Politécnica da Universidade de São Paulo). Com doutorado no Royal Institute of Technology, é atualmente professor associado do Departamento de Engenharia de Construção Civil da Poli e coordenador da pós-graduação. Vice-presidente do Antac (Associação Nacional de Tecnologia do Ambiente Construído), participou da estruturação do Holcim Awards e coordenou o prêmio na América Latina. É um dos autores da Agenda 21 de Construção Sustentável para os países em desenvolvimento do Programa das Nações Unidas para
o Meio Ambiente.



Se os prognósticos estiverem certos e as evidências indicam que estão o leme da construção civil está mudando de direção muito rapidamente. A nova direção apontada é a da sustentabilidade. Muito mais do que simples preservação do meio ambiente a todo custo, a sustentabilidade se apóia em três pés: o desenvolvimento econômico, o desenvolvimento social e, também, o respeito ao meio ambiente. Relevante para países em desenvolvimento, como o Brasil, a chamada agenda marrom prevê o crescimento de forma ordenada e se aplica à atividade da construção. Isso porque essa indústria é uma das maiores responsáveis pela extração e consumo de matérias-primas e se relaciona diretamente com a organização econômica e social. É indispensável, no entanto, elaborar estratégias, soluções e metodologias personalizadas para cada realidade, não sendo recomendável - por ser ineficiente - importar as tecnologias desenvolvidas no exterior, especialmente nos países desenvolvidos. Embora a solução ambiental possa ser universal, na maioria dos casos a questão econômica e principalmente social é muito diversa e complexa. Dessa maneira, os construtores brasileiros, bem como os acadêmicos da construção, têm o desafio de tornar sustentável uma das principais atividades industriais brasileiras. Isso sem, no entanto, prejudicar os custos envolvidos no processo, bem como a cultura organizacional do setor. O engenheiro e pesquisador Vanderley John, em entrevista à revista Téchne, mostra as responsabilidades da engenharia e da arquitetura na busca da construção sustentável.


O conceito de green building está se difundindo no meio da construção civil. É o mesmo que falar em desenvolvimento sustentável?

Trabalho com o conceito de sustentabilidade, e não com o de green building (construção verde). O segundo se preocupa em proteger o meio ambiente, a chamada agenda green, que alerta para o risco de acabarmos com o planeta. O primeiro é mais amplo e considera o ambiente, a sociedade e a economia, a chamada agenda marrom. Essa é importante para países em desenvolvimento e visa a sociedade e a economia. Em países onde a economia é forte e os problemas sociais estão resolvidos, a prioridade é a green.

É possível aplicar esses conceitos aos empreendimentos brasileiros?

Todo orçamento permite fazer algo pela sustentabilidade, mesmo que não seja o green building, o edifício com baixíssimo impacto ambiental. O desafio não é fazer cinqüenta edifícios altamente eficientes, mas tornar o macrocomplexo da construção civil, que representa 15% do PIB (Produto Interno Bruto), ser mais sustentável. Para oferecer um ambiente construído adequado para a população, colaborando para a solução dos problemas sociais, inclusive os internos da construção, e manter a competitividade econômica, a questão é saber o que fazer para cada projeto, quais os pontos de sustentabilidade a ser atacados.


Como fazer isso sem aumentar os custos de construção?

Considerando os impactos ambientais, uma idéia é reduzir o consumo de matéria-prima. Reduzindo em 2% o custo de construção, pode-se viabilizar idéias de sustentabilidade que, eventualmente, encurtem o prazo de vendas. É possível criar condições para economizar energia e não responsabilizar os usuários pelo consumo. Podemos manipular o uso de luz natural, trabalhar fachadas com isolamento térmico no lado Oeste, por exemplo. A engenharia está em construir uma agenda que seja o diferencial de venda do empreendedor. É uma opção estratégica das empresas, como ocorreu quando pensaram em qualidade. Os canteiros mudaram e a sustentabilidade vem para complementar a qualidade.

É viável pensar assim para todos os tipos de construção?

Num empreendimento build to suit, por exemplo, consigo viabilizar sistemas avançados de eficiência energética, gestão de consumo de água e energia online. Pode ser interessante para o locatário construir um edifício com baixo custo de manutenção e operação, mesmo que o custo de construção seja maior. Na venda para a classe média os consumidores podem estar interessados, por exemplo, em aquecimento solar. Se não é viável economicamente, pode-se deixar preparado para instalação futura.

Os investimentos ocorrerão em virtude da demanda social ou da legislação?

Será a combinação de vários fatores, como a existência de um grupo de trabalho para criar um código energético para os edifícios brasileiros, uma questão urgente. O nível de regulamentação para construção civil em relação ao desenvolvimento sustentável nos EUA e na Europa é enorme, particularmente na área ambiental. Da mesma forma como o que ocorreu com a qualidade, pode-se resistir ou tornar isso uma vantagem competitiva. É a tendência mundial.

Como estamos em relação ao exterior?

Nossa infra-estrutura está montada e a legislação está vindo junto. A cadeia de fornecedores está relativamente preparada. Existem problemas, como o da madeira, mas se observarmos a indústria do cimento e das tintas e a disponibilidade de equipamentos de economia d'água e de eletricidade, estamos bem. Nosso cimento é dos mais ecoeficientes do mundo, embora engenheiros e arquitetos resistam ao CP-III ou ao CP-IV, que reduzem o consumo de recursos naturais por retirar resíduos de aterros. Concluindo a análise das propostas que vieram pelo concurso da Fundação Holcim, embora existam excelentes projetos brasileiros, na média o projeto argentino, chileno ou colombiano é mais sofisticado, completo e abrangente.

O que falta para esses recursos serem aplicados?

No concurso pude perceber que o problema é a falta de conhecimento e que vamos levar cinco ou mais anos para termos consultores e projetistas que dominem esses aspectos. É fácil falar em reúso de água, mas não sabemos falar em como e o que fazer, embora tenhamos materiais disponíveis no mercado que permitem reduzir significativamente o impacto ambiental.

O gargalo, então, está no projeto?

Está e também existe em países desenvolvidos, mas estão avançados em relação a nós. Isso significa que o profissional deles está mais preparado. No Brasil, faltam o conhecimento e a demanda da sociedade, que ainda não percebeu, e do governo, que é ausente. Em quase todos os países desenvolvidos o governo é quem começa a comprar construção sustentável, pois se um prédio público é pouco eficiente energeticamente, o governo gasta mais durante 50 anos. No Brasil, a demanda está começando pelas grandes corporações, que compram construção sustentável no exterior. Em seguida, vem a classe média.


Na prática, em que aspecto da sustentabilidade estamos pior?

Na questão social, na informalidade. Visitei uma obra de uma residência ecoeficiente em São Paulo, com tudo o que podemos imaginar para diminuir o impacto ambiental. No entanto, o impacto social começava no tijolo, que não tinha nota fiscal. Além disso, os operários estavam almoçando na chuva, não usavam EPI, os tijolos estavam fora de bitola, quebrados, a areia espalhada, um desperdício generalizado. Como ter uma construção sustentável que não paga imposto e não respeita direitos trabalhistas?

É um desvirtuamento do conceito?

Muita gente se mobiliza fortemente pelo verde, mas não tem a mesma sensibilidade para a questão social. Esse é um viés da sociedade brasileira. Somos capazes de importar fotocélulas e lâmpadas de baixo consumo, e contratar um gato do mais barato possível para tocar a obra, comprar um tijolo 30% mais barato, que evidentemente não paga impostos.

Então, o conceito de sustentabilidade é outro para o Brasil?

Nossa indústria e nossa agenda são diferentes da européia. No Brasil estamos explodindo muito mais para o lado social do que para o lado ambiental. Então, não podemos encarar as questões separadamente. Estamos num país extremamente ecoeficiente. O problema da Amazônia, para mim, é de outra natureza. Considero impossível conservar a área intocada, pois é muito grande e seria caro.

Não temos como nos espelhar no que acontece no exterior?

A questão das perdas refere-se à agenda green e é relevante no Brasil, na África do Sul ou na Índia, mas não na Inglaterra ou na França, que contam com sistemas de modulação e respeito às normas. Para cada empreendimento temos que definir uma agenda, com o desafio de entender as necessidades específicas. Quando se fala de green building, pensa-se fundamentalmente no que os americanos fazem. Alguns aspectos, que não são viáveis, são esquecidos, enquanto outros não são importantes para nossa realidade.

Como é um projeto sustentável desde o começo?

Não há fórmulas prontas, cada edifício é um caso. Entendendo o público-alvo, consigo construir a agenda de sustentabilidade, que tem que ser viabilizada no orçamento. Arquiteto e projetistas têm que transformá-la em soluções que funcionem. Por exemplo, definir a agenda para um empreendimento fora da malha urbana, sem rede de água, onde é importante tratar e reusar o esgoto. Com ocupação horizontal favorecida, a eficiência energética depende muito do telhado. Numa torre, do ponto de vista de impacto ambiental geral no edifício, o importante são as fachadas, que ganham e perdem energia e usam mais material de construção.

Algumas novas tendências, como o build to suit, já incorporam o conceito de sustentabilidade?

Facilitam a incorporação da construção sustentável, mas não tenho visto isso ocorrer. A não ser na parte de energia, os compradores não demandam e não há edifícios, residenciais ou comerciais, em São Paulo, que tenham sido projetados de forma sustentável. Temos alguns empreendimentos habitacionais, mas mesmo os edifícios mais modernos são um desastre muito respeitável sob esse aspecto. A paixão por vidros é mortal nos trópicos, embora os europeus utilizem recursos modernos, como peles duplas, para aumentar a eficiência energética.

Qual a importância de premiações como a da Holcim para o desenvolvimento de construções sustentáveis?

Cumprem o papel de mobilizar as pessoas e fazê-las perceber que a construção tem grande impacto ambiental e social. Incentivam a criatividade e a educação do mercado. A solução padrão de edifício não é sustentável. O Brasil foi o país com maior número de inscrições e já sentimos isso no mercado, com quatro ou cinco projetos em andamento, tentando implementar a construção sustentável.


O que de mais inovador foi revelado pelo concurso?

Gosto do projeto vencedor do Prêmio latino-americano, que propôs, como política pública para Buenos Aires, jardins no telhado. A idéia evita os piscinões e mostra que vale a pena subsidiar a construção dos jardins, que, além de reter a água da chuva, reduzem a temperatura no verão e aumentam o isolamento no inverno. A tecnologia é usada pelos escandinavos há 700 anos, mas propor como política pública, demonstrando a viabilidade, é mais interessante. Um projeto africano propõe usar resfriamento evaporativo nas paredes em zonas muito quentes e secas. É o efeito de moringa, em que a água atravessa as paredes e, ao sair, evapora e resfria o ambiente.

Se a proposta argentina é uma idéia antiga, qual o mérito do prêmio?

Na nossa visão, é mais importante ter uma proposta de política pública do que dois ou três edifícios hiperavançados. Conseguindo uma pequena melhoria a ser adotada por boa parte das construções, consigo um impacto ambiental e social muito maior do que num edifício, pois ganhamos em escala.

O que, de fato, vai vir a ser realidade nos próximos anos?

O projeto vai mudar muito e se tornar mais importante e sofisticado. A solução padrão vai deixar de ser a mais competitiva e viável sempre. Contribuem para isso o custo crescente de energia e a possível adoção de um código de eficiência energética, que vai acabar com o uso de materiais iguais em todas as fachadas. Os projetistas de elétrica e hidráulica vão passar a se preocupar com eficiência. Os canteiros vão mudar, pois os vizinhos perderam a paciência e somos uma sociedade mais civilizada e rica do que há 20 anos, que não aceita que a chuva cause uma erosão no solo, inunde e embarre a rua. Mesmo com uma economia estagnada, os salários estão subindo. Então, a tendência é trabalhar com um aumento significativo da produtividade da mão-de-obra.

O que vai mudar na indústria de materiais?

A variedade de materiais vai acabar com a solução padrão. Vamos resolver o problema ambiental e utilizar mais madeira. A eficiência energética vai ganhar importância. O consumo de isolantes e de vidros com melhor desempenho térmico vai crescer e vamos, progressivamente, incorporar ar-condicionado nos edifícios. As divisórias leves vão ganhar espaço com a demanda por flexibilidade. Hoje, mesmo com até seis divisões de apartamento a serem escolhidas pelo comprador, ainda há demolição após a compra.

As características dos edifícios serão alteradas?

O edifício, para ser sustentável, deverá assimilar adequadamente cada material, cumprindo a função com o mínimo de impacto. Progressivamente vamos abandonar o edifício sempre feito com alvenaria e estrutura de concreto armado por soluções mais adequadas e sofisticadas, utilizando materiais em aplicações para as quais são mais eficientes. O concreto é ideal para compressão, mas, na flexão, uma treliça de aço ou uma viga de madeira colada podem ser melhores. As paredes poderão ser compostas por barrotes de madeira e revestidas por placas cimentícias por fora e gesso acartonado por dentro.

Isso, de alguma maneira, pode alterar a organização do mercado?

Hoje, todos adotam a mesma solução tecnológica, com pequenas variantes e a competição não está na tecnologia. Quando começarmos a nos abrir para outras possibilidades, passaremos a competir por soluções tecnológicas. Nesse contexto, a necessidade por baixar custos e aumentar a eficiência vai abrir caminho para soluções positivas.


Atualmente, as soluções mais sustentáveis são praticamente artesanais. Nesse sentido, a busca pela sustentabilidade poderia gerar menos produtividade.

É uma ciência olhar para um projeto e não fazer pilar, vigas e laje de concreto e parede de alvenaria. Isso não é engenharia, não tem criatividade. Engenharia é pensar nas necessidades, no impacto ambiental, na margem de lucro e viabilizar a construção. Um custo maior pode ser compensado por uma velocidade de venda maior.

Levar isso em conta não vai na contramão da sustentabilidade?

Não, pois sustentabilidade se baseia na economia, no ambiente e na sociedade. Um edifício mais sustentável e bem feito conta com flexibilidade, economia de operação e vende mais rápido. Ainda assim, o não sustentável não remete a baixo custo de construção e, muito menos, baixo custo de operação. E mais, custo baixo não significa lucro alto. Taxa de retorno de capital depende de prazo. Num país com juros de 20% ao ano, prazo de comercialização deveria ser tão ou mais importante que o custo da estrutura. É uma revolução na forma de pensar.

Essa revolução tem a sustentabilidade como argumento de venda?

O orçamento de marketing num empreendimento é enorme e, na verdade, não há muita diferença entre um edifício e outro. Todos usam a mesma tecnologia. O consumidor é convencido por uma propaganda de algo que não é diferenciado. A outra forma é competir por tecnologia e criatividade e proteger o meio ambiente. A sustentabilidade deve ser uma decisão competitiva. As empresas vão investir nisso e levar dez anos para conseguirem entender e dominar a tecnologia, e isso nunca vai parar, como a qualidade.

Então, o argumento econômico é o principal para impulsionar a construção sustentável?

Outra razão, que considero ainda mais importante, é o que os ingleses chamam de priding the job (orgulho do trabalho, na tradução literal). Precisamos reconhecer que, como vai, vai mal, e que o problema é da sociedade e, particularmente, da engenharia e da arquitetura, profissões técnicas que movimentam a indústria. Os programas de qualidade resgataram um pouco da auto-estima do engenheiro. A sustentabilidade tem outra dimensão, que é a do futuro da humanidade. Devemos incorporar conceitos de sustentabilidade não apenas porque é decisivo para a sobrevivência da empresa, mas porque dá satisfação pessoal ajudar a resolver o problema da humanidade. Minha mensagem é que podemos fazer algo em benefício da sustentabilidade e até aumentar a margem de lucro do empreendimento, mas as medidas têm que ser analisadas caso a caso. Esse é o mercado para o engenheiro e o arquiteto ganharem dinheiro, melhorando o país e a sociedade.

Criatividade, e não conhecimento científico, é o ingrediente principal para o profissional se preparar para a construção sustentável?

Não há receita, há espaço para desenvolver tecnologias, idéias, produtos e há demanda para arquitetos que entendam de construção sustentável. A universidade precisa reajustar os conteúdos dos cursos e implementar programas de educação continuada. Faltam cursos e literatura técnica. O profissional sai da universidade com conceitos fundamentais, mas trabalhando num paradigma para o qual não foi preparado. Nas faculdades de engenharia o que se fala de meio ambiente é, em grande medida, tratamento de esgoto, aterro sanitário e tratamento de água. E o profissional vai entrar num mundo de gestão de resíduos, solos contaminados, eficiência energética, domótica, eletrônica embarcada.


De que maneira a construção civil pode utilizar madeira sem intensificar o problema ambiental?

A quantidade de carbono fixa na floresta parada é constante. Se utilizarmos a madeira na construção civil onde ela fica, se bem protegida, por até 200 anos, e plantarmos outra árvore no lugar, fixamos mais CO2. Madeira será estoque de carbono e é perfeitamente possível vincular isso ao crédito de carbono, mas é necessário garantir que será usada em aplicações de longa vida útil.

A seleção de materiais é, então, crucial para a construção sustentável?

Tão ou mais importante é selecionar o fornecedor. A diferença de ecoeficiência, impacto ambiental e responsabilidade social entre fornecedores é enorme. Existem os que pagam impostos e respeitam leis trabalhistas e ambientais competindo com quem não faz isso. Entre os legais, a diferença entre as plantas industriais é muito grande. Em um estudo, foram analisadas as treze mais modernas plantas brasileiras de fabricação de cimento. A diferença no combate ao efeito estufa era de 30% entre a mais ecoeficiente e a menos. Em seguida, vem a busca do melhor material para cada função. Serão decisões técnicas, econômicas e ambientais, e a habilidade em fazer isso vai implicar em competitividade. Vamos precisar saber qual é o impacto ambiental do material e do fornecedor e não temos nada no Brasil que analise o ciclo de vida e a declaração ambiental do produto.

Aí entramos no campo da certificação?

Nem tanto certificação ou selo, mas autodeclaração. Na Suécia, os produtos contam com uma declaração ambiental que informa a emissão de CO2, o percentual de material reciclado utilizado e a origem da energia elétrica. Assim é possível comparar os produtos do ponto de vista da ecoefiência. Precisamos criar essa estrutura e essa cultura no Brasil para fornecer a informação não apenas do produto, mas também da planta. A lógica e a metodologia para a análise do ciclo de vida estão disponíveis e começam a ser empregadas na Europa e nos EUA. E um conceito que, em breve, ganhará destaque é o da durabilidade.

A eletrônica passará a ser comum em edificações?

Em edifícios comerciais já é visível, está barateando e penso que serão comuns telhados, paredes e janelas ativas, automatizadas. Não devemos subestimar a capacidade da indústria eletrônica em baixar preços e incorporar pessoas ao mercado. O exemplo típico é o celular. Isso muda todo o canteiro e a organização da construtora. A eletrônica vai permitir a digitalização da segurança, com controle a distância, e os condomínios poderão contar com serviços de banda larga com serviço de telefonia VOIP (voz sobre IP), medição e controle online de consumo de água. Não é caro. Se o condomínio comprar telefonia no atacado, gera economia e sustentabilidade.

Qual a responsabilidade do construtor nisso?

Vejo a questão da sustentabilidade como uma oportunidade para o construtor, da mesma forma que a qualidade no final da década de 80. Quem entrou na frente ganhou destaque e teve lucros. Agora nivelou nesse aspecto e a próxima competição é a da sustentabilidade, incluindo a questão social.

De que maneira o consumidor vai perceber a intenção do construtor?

Começam a surgir edifícios verdes no Brasil, mas faltam ferramentas que permitam ao construtor avaliar o quão sustentável é o edifício e que oriente o consumidor. Hoje, é difícil para o leigo saber se o que compra é de fato verde, ele não consegue perceber se houve gestão de perdas no canteiro ou se o cimento utilizado é de baixo impacto ambiental, se a madeira é legalizada e durável, por exemplo. Vamos começar a falar de declaração e avaliação de sustentabilidade de empreendimentos e criar esquemas adequados à realidade brasileira, que irão desde a auto-avaliação até a contratação de uma avaliação de terceira parte do empreendimento.


Quais devem ser os grandes mercados para a construção sustentável em nível mundial?

Os americanos têm projetos que envolvem o governo, empresas e universidades com a idéia de conceber casas ambientalmente sustentáveis, mais baratas e duráveis. Na Inglaterra, existem programas como o que procura melhorar a imagem do canteiro de obras, tendo como um dos itens controlar a tendência dos operários de assobiarem para as mulheres. O mercado do retrofit vai crescer e será puxado pela necessidade de adequar e modernizar os edifícios para as demandas da construção sustentável.

Os edifícios sustentáveis têm que prever uma atualização futura?

Devem ser projetados de forma que a alteração, que não sabemos qual será, possa ser feita com o mínimo de custo e impacto ambiental. O edifício sustentável é flexível e suscetível a retrofit, com possibilidade de trocar a fachada por razões estéticas ou de mudança de paradigma de eficiência energética.

A legislação está em dia com a construção sustentável?

Os códigos de obra e os planos diretores não são pensados para a sustentabilidade e podem atrapalhar projetos sustentáveis. O plano diretor de São Paulo continua permitindo sobrado, que tem baixa densidade de habitação e permeabilidade do solo praticamente zero. É necessário modificar para permitir soluções mais sustentáveis até do ponto de vista econômico. Um exemplo é um empreendimento de duas torres em São Paulo. Quando a primeira terminou, poderia ser alugada, mas ficou um ano esperando a conclusão da segunda, porque o "Habite-se" é para o empreendimento inteiro. A discussão é nova e temos mania de proibir tudo, sem fiscalizar nada.
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