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Desperdício mínimo

Poli-USP coordena estudo que permitiu a um grupo de construtoras reduzir perdas. Veja como foram identificados os focos e as Ações: corretivas adotadas

Renato Faria
Edição 113 - Agosto/2006

Nos últimos anos, as pesquisas realizadas com enfoque em redução de perdas de materiais nos canteiros apresentaram um grande salto de qualidade. Com a Resolução no 307 do Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente), que responsabiliza as construtoras pela correta destinação dos resíduos gerados nas obras, a tendência é que, indiretamente, esses estudos se desenvolvam ainda mais.

Um dos mais recentes projetos na área foi realizado em conjunto pela Escola Politécnica da USP e pelo Sindus- Con-SP (Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo), com financimento da Finep (Financiadora de Estudos e Projetos). O programa Gesconmat (sigla de Gestão de Consumo de Materiais) reuniu nove empresas, que realizaram em seus canteiros estudos sobre os materiais que apresentavam perdas mais significativas, física ou financeiramente.

O professor Ubiraci Espinelli, da Escola Politécnica, que foi um dos coordenadores do Gesconmat, lembra que a construção civil brasileira vinha há anos sendo criticada como uma grande "desperdiçadora de recursos", de material e mão-de-obra. Até que, em meados da década de 1990, surgiu no setor um "mito" que dizia que, a cada três prédios construídos, um era "jogado no lixo". "Era uma afirmação vazia.As pessoas não sabiam dizer se o desperdício era em volume ou financeiro. Era um mito, indemonstrável, intocável, que era repetido sem avaliação científica", conta Espinelli.

A partir desse momento,organizouse um grande estudo, que envolveu 16 universidades brasileiras e 100 canteiros de obras, para traçar um diagnóstico preciso das principais causas de perdas de materiais nas obras. "Em massa, o desperdício chegava a índices relevantes de até 28%", afirma o professor. "Financeiramente, porém, o valor chegava a apenas 5%." Ele frisa uma diferença conceitual, que foi bastante trabalhada entre os participantes do Gesconmat: perda é a diferença entre a quantidade de material teoricamente necessário e a de fato utilizada. As perdas possuem uma fração evitável - desperdício, furtos, manuseio impróprio - e uma fração inevitável - inerente ao nível tecnológico vigente - que inclui perdas incorporadas, sobras de materiais, entre outros.

Projeto mais recente, o Gesconmat tem um foco um pouco diferente. Identificados os diagnósticos dos principais pontos de perdas de materiais, passouse a implementar Ações: práticas para reduzi- las e diminuir o consumo de materiais. O estudo virou um relatório, apresentado às construtoras no Sindus- Con-SP. Vários dos conceitos adotados no programa constam no livro "Como Reduzir Perdas nos Canteiros", de Ubiraci Espinelli.

Gestão de consumo

Um elemento fundamental no trabalho dizia respeito ao controle dos materiais. Jair Melo Júnior, gerente de Qualidade da Fortenge, uma das empresas que participaram do Gesconmat, conta que, no início, encontraram dificuldades para realizar o controle intensivo dos materiais. "Na obra piloto, começamos a controlar cinco materiais. Foi um erro,pois o controle não é fácil", conta Jair. "Depois, fizemos um planejamento, para um controle mais focado. Foi quando começamos a trabalhar no bloco de concreto", completa (veja o case no quadro da pág. 35).

O professor Espinelli acredita que, para haver o controle mais rígido,a empresa deve ter um "guardião" da gestão de consumos, alguém que interaja com projetistas, orçamentistas, que atue junto com a área de suprimentos e na contratação da mão-de-obra. É o caso da Construtora Marques, como conta a engenheira Alessandra Yoshie Kato. "A cada concretagem reuníamos fornecedor, engenharia e mão-de-obra para acompanhar as perdas observadas."

Entre os serviços em que se observam mais perdas de material estão os que exigem um trabalho maior de moldagem. Segundo o professor Espinelli, a argamassa é a que apresenta maiores índices de perdas: chegam a 100%. A Sinco Engenharia, que trabalhou com argamassa de revestimento interno, chegou à redução de 50% do desperdício. "A perda que foi medida era uma perda que virava entulho", afirma o engenheiro David Antonio Nonno, da Sinco.

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