Jarbas Karman | Téchne

Carreira

Jarbas Karman

Numa época em que o empirismo dominava a arquitetura hospitalar, o arquiteto partiu em busca dos fundamentos técnicos e científicos da arte de projetar

Edição 114 - Setembro/2006
Sofia Mattos
Jarbas Bela Karman
Idade: 89 anos
Graduação: engenharia civil, em 1941, e arquitetura, em 1947, pela Escola Politécnica da USP e administrador hospitalar pelo Conselho Regional de Administração Especializações: mestrado em arquitetura hospitalar pela Universidade de Yale, nos Estados Unidos, em 1952, e pós-graduação pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, em 1967 Empresas em que trabalhou: Sociedade Urbanizadora de São Paulo, Sesp (Serviço Especial de Saúde Pública)
Cargos que exerceu: professor pela Câmara de Ensino Superior do Conselho Federal de Educação; presidente e professor da Faculdade de Administração Hospitalar do IPH (Instituto Brasileiro de Desenvolvimento e de Pesquisas Hospitalares)

Com um irmão que se dedicava ao ramo imobiliário, comprando e loteando glebas para venda, construir era mais que uma atividade; era um incremento nos negócios. Foi assim que começou Jarbas Karman, aos 17 anos, projetando e, posteriormente, executando pequenas casas de alvenaria assentadas a barro.Muitos dos tijolos dessas habitações vieram de um negócio feito com um dono de olaria, que pagou o terreno adquirido com tijolos.

Formado em engenharia, se via obrigado a construir para arquitetos cujos projetos, muitas vezes, não gostava. "Estava precisando da arquitetura." Para não apenas imaginar soluções mais adequadas voltou à Politécnica, que ainda abrigava a arquitetura, para cursar as disciplinas que lhe dariam o diploma necessário.

Dentre os projetos específicos obrigatórios durante o curso,o da área de saúde despertou a paixão de Karman. Ainda mais porque, ao perguntar a respeito de soluções para os professores, não obtinha respostas convincentes. Médicos, incluindo donos de hospitais, tinham opiniões divergentes. O "deserto hospitalar", onde reinava o empirismo, determinou o caminho do arquiteto. "Foi gratificante encontrar-me e posteriormente enfronhar- me nos meandros da arquitetura hospitalar", explica, ao comentar o embate com "empirismos, inconsistências e muito por pesquisar".

Tanta pesquisa, sempre por conta própria, o transformou no profissional certo a ser chamado pelo Sesp (Serviço Especial de Saúde Pública) para atuar na construção de hospitais na região ribeirinha do rio São Francisco. Três anos depois, de acordo com o contrato assinado, foi à Universidade de Yale estudar arquitetura hospitalar, exclusivamente.

Indicado pelo diretor da Universidade ganhou nova bolsa para estudar no Canadá.Lá conheceu o mestre Carl Walter e dele herdou o espírito contestador. "Era um gênio muito adiantado para a época,ia contra leis obsoletas,como hoje eu questiono muitas", resume.

Hóspede do governo norte-americano, por meio da Hospital Division Facilities, que via na saúde pública uma questão de segurança nacional, viu portas se abrirem.Voltou ao Brasil com vasta experiência e 45 caixas de material de pesquisa na bagagem, o suficiente para fundar o IPH (Instituto Brasileiro de Desenvolvimento e de Pesquisas Hospitalares), entidade sem fins lucrativos.

Por meio do Instituto, dentre outras atividades,luta para melhorar a qualidade dos projetos hospitalares. O exemplo está na própria norma da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) que regulamenta a construção de hospitais.

Se antes continha, com sua anuência, desenhos para orientar os projetos, hoje o mesmo Karman se orgulha de dizer que traz apenas orientações textuais.O que parece um retrocesso revela, na verdade, a necessidade de coibir a simples cópia dos desenhos, sem concepção alguma. Tal revisão na norma, para ele, tem o intuito de estabelecer uma visão sistêmica dos projetos.

Junto com seu sócio há 42 anos, o médico e arquiteto Domingos Fiorentini, Karman une engenharia à medicina. Apaixonado por medicina preventiva, infectologia e administração de hospitais, enxerga um hospital como um organismo vivo, que depende de diversos fatores para ser considerado eficiente, a começar pelo terreno e envolvendo até a flexibilidade e a correlação funcional dos espaços.

Esse leque de exigências já fez o escritório de Karman recusar serviços.

"Quero hospitais bons para o médico, o paciente,a coletividade e o País",explica. Por isso,pauta-se por critérios essenciais ao conceber um hospital.O primeiro é a previsão de atualização.Se a obsolescência, como diz, é a grande inimiga dos arquitetos, o conhecimento da evolução tecnológica é das maiores aliadas. Esse pensamento tornou o arquiteto um pioneiro ao, em 1958,criar o espaço técnico. O feito, registrado por uma revista norte-americana da época, é repetido a cada novo projeto garantindo a possibilidade de atualização.

Não é à toa que considera a flexibilidade um dos maiores trunfos de um hospital. Daí vem a afirmação: "quanto mais durável,menos durável". A explicação é simples.Uma parede de concreto tem vida útil de 50 anos,aproximadamente. No entanto, engessa o ambiente por impossibilitar mudanças. "É absurdo o arquiteto barrar o progresso."

Outra inovação introduzida nos hospitais por ele projetados é o envolvimento dos ambientes com instalações. Com estas presentes em todo o contorno, o ambiente ganha flexibilidade,pois os equipamentos podem ser dispostos de maneiras variadas sem a necessidade de quebrar nenhuma parede.

Mais de 65 anos de carreira não tiraram de Karman a obrigação ou a vontade de questionar até mesmo os conhecimentos já consolidados.Recomenda aos jovens profissionais submeter tudo ao crivo do bom senso, pois vence quem for capaz de algo a mais, mais rápido e organizado, o que exige estudo e leitura constantes.

Em relação à própria especialidade, critica o descaso generalizado com os hospitais, equipamentos sociais de suma importância para a humanidade, mas que ainda são pouco estudados e pesquisados e estão impregnados de tabus, preconceitos e improvisações.

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