Flor do cerrado | Téchne

Obras

Flor do cerrado

Próximo a Brasília, estrutura de 182 m para transmissão de TV digital tem comportamento monitorado por fibras ópticas durante e após a construção

Por Luciana Tamaki
Edição 168 - Março/2011

Fotos: divulgação Mendes Júnior
A "flor do cerrado" de Brasília tem 182 m de altura, sendo 120 m somente de estrutura de concreto armado que recebeu sensores de fibra óptica para monitoramento em tempo real

Na cidade de Sobradinho, a 20 km do centro de Brasília, está sendo finalizado um novo marco da região: uma torre de TV digital de 182 m, para a transmissão de 12 canais abertos. Para a sua construção, foram empregados processos tecnológicos como testes em túnel de vento, além da instalação de fibras ópticas para realizar o monitoramento em tempo real da estrutura em concreto.

Apelidada de "Flor do Cerrado", a torre é um projeto de Oscar Niemeyer, com 120 m de estrutura de concreto armado mais 50 m de torre metálica e 12 m de antena. A base cilíndrica funciona como um "caule" que exibe duas "hastes" para abrigar dois espaços cobertos: de um lado, aos 60 m, ficará um centro de exposições; do outro lado, aos 80 m, um bar e café. Aos 110 m de altura, há um mirante com vista de 360o.

As estruturas da torre dividem-se em fuste, cálice, braços e cúpula. No fuste, o diâmetro da torre é 12 m e não se altera até a cota 85 m. Na parte do cálice o diâmetro é variado, aumentando de 12 m na cota 85 m para 20 m na cota 120 m.

Fotos: divulgação Mendes Júnior
O fuste tem diâmetro regular de 12 m e vai até a cota 85 m. O concreto era lançado quase no início de pega, com slump 5
Por baixo da terra

A torre tem um subsolo de 10 m de profundidade, que acomoda parte das instalações e os equipamentos de transmissão. As fundações, portanto, não começam no nível do terreno: "Isso aumenta o esforço da fundação, pois o momento é ainda maior", conta Mário Terra, projetista da Avantec, que trabalhou junto com José Carlos Sussekind no projeto de fundações e estruturas de concreto.

Uma das maiores dificuldades, segundo Terra, foi analisar os efeitos de vento na forma peculiar da estrutura. "Não há bibliografia de uma torre com essas características", diz o projetista. Foram, então, realizados ensaios em túnel de vento.

Para garantir a estabilidade da torre, foi executado abaixo do subsolo um grande bloco de concreto com raio de 12,85 m e 4,5 m de altura. "Todo o esforço e o peso do material exigem uma área para distribuir a carga. Esse diâmetro do bloco não foi mais que o necessário para instalar todas as estacas, pois elas precisam ser distribuídas com espaçamento mínimo, e não havia como colocar menos estacas, por conta do grande esforço", explica o engenheiro.

Foram instaladas 246 estacas do tipo raiz com 12 m de comprimento. A escolha desse sistema se deu por conta do tipo de solo no local, com arenito intercalado com argila. "Uma estaca convencional não penetraria nesse solo, não enfrenta uma superfície com característica rochosa", argumenta Terra.

Para sua execução, foi feita uma escavação com 13,60 m de profundidade. Após a escavação, iniciou-se, em agosto de 2009, a perfuração das estacas.

Fotos: divulgação Mendes Júnior

Fotos: divulgação Mendes Júnior
A rampa de acesso à torre compõe-se de duas curvas helicoidais de 65 m de extensão. Sua estrutura é um caixão perdido de 3,10 m a 6,25 m de largura, protendido pelo eixo central de três vãos

Fôrmas diversas

Construída pelo consórcio Mendes Júnior/Átrium, a obra já concluiu suas estruturas de concreto e cúpulas geodésicas, e está finalizando a instalação dos vidros do mirante. Bruno Zauli, gerente de contrato da Mendes Júnior, conta que as maiores dificuldades executivas provêm da altura, tanto para garantir a qualidade da obra, considerando ser um projeto de Niemeyer, como também para prezar pela integridade física dos trabalhadores.

Divulgação: Mendes Júnior
Diferentes partes da estrutura de concreto foram executadas com fôrma deslizante, fôrma autoelevatória e fôrma autotrepante
Na execução do fuste, até a altura de 85 m, foi adotado o processo de fôrma metálica deslizante. "A fôrma é abastecida manualmente com concreto e se desloca verticalmente por acionamento dos macacos hidráulicos, abastecendo novos espaços e assim por diante até sua cota máxima de deslizamento", conta Bruno Zauli, gerente de contrato da Mendes Júnior.

O concreto utilizado foi de 50 MPa com slump 5, quase no início da pega. "O lançamento é um processo ininterrupto, com média de 1,30 m de altura a cada 24 horas" conta Zauli.

Já na parte do cálice, o diâmetro é variado, com 12 m na cota 85 m aumentando até 20 m aos 120 m de altura. Nessa etapa foi utilizada fôrma autoelevatória: primeiro é realizada a montagem inicial da fôrma, depois o basculamento, içamento, travamento e concretagem. Essas etapas foram repetidas sucessivamente, com a fôrma sempre se apoiando na anterior.

Na laje da cobertura, onde é fixada a estrutura metálica, o vento é ainda mais crítico. A fixação, que tem de ser bastante reforçada, foi rea­lizada com chumbadores passantes pesados. "Foi o detalhe que melhor atendeu à estrutura metálica e permitiu o detalhamento da estrutura de concreto para garantir a fixação", explica Mário Terra.

Um ponto que demandou cuidado especial, tanto no projeto como na obra, foi o rebaixo com abertura de janelas pela torre. "A cada 10 m, em cada pavimento interno, há uma janela", conta Terra. "Elas estão na direção mais solicitada da torre, perpendicular aos braços. Foi muito trabalho de detalhamento, tivemos que reforçar a armadura em todo o contorno dessas janelas", relata o projetista.

Fotos: divulgação Mendes Junior
A protensão feita no nível superior de cada braço, absorvendo a carga dos consoles, proporcionou redução da armadura que une o braço ao fuste da torre
Braços

Para a execução dos braços externos que compõem as estruturas que sustentarão as cúpulas geodésicas aos 60 m e 80 m de altura, foi adotado o processo de fôrma metálica autotrepante. Na primeira etapa é feita a montagem da fôrma inicial, a armação e concretagem. Após essa concretagem, um novo jogo de fôrma é montado, apoiado no primeiro, e é feita nova concretagem. A sequência segue com a desmontagem da primeira fôrma e remontagem sobre a de cima, com posterior concretagem, seguindo-se assim até a cota final de projeto.

PÁGINAS :: 1 | 2 | Próxima >>
Destaques da Loja Pini
Aplicativos