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Obras

Arte concreta

Graças ao domínio da técnica de protensão e ao refinamento dos cálculos, a estrutura complexa, dissimétrica, leve e monumental da Cidade das Artes (ex-Cidade da Música) pode ser considerada uma obra-prima de esbeltez

Por Éride Moura
Edição 174 - Setembro/2011
Marcelo Scandaroli

Depois de sete anos de obras e paralisações, a Cidade das Artes do Rio de Janeiro (ex-Cidade da Música), um dos mais arrojados empreendimentos públicos destinado à cultura das últimas décadas no País, será finalmente entregue à população no próximo mês de outubro. Construído na Barra da Tijuca, no entroncamento das avenidas Ayrton Senna e das Américas, o complexo monumental concebido pelo francês Christian de Portzamparc (Prêmio Pritzke de 1994) para sediar a Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB) oferece espaços de padrão internacional para audições, tanto de música sinfônica e ópera, quanto de música de câmara e popular.

A história desse primeiro projeto de Portzamparc no Brasil teve início em 2002, quando Cesar Maia, então prefeito do Rio, confiou ao arquiteto a concepção do edifício. A encomenda pública sem concorrência foi possível graças à experiência reconhecida do arquiteto, já com mais de 30 projetos musicais em todo o mundo, entre eles o da Cité de La Musique de La Villette, em Paris, a Filarmônica de Luxemburgo e a Escola de Dança de Ópera de Nanterre, França.

Desde o início, ficou claro para o arquiteto que o edifício seria um símbolo público com presença forte no local, e um equipamento de altíssimo nível técnico, com espaços para audições musicais tão bons quanto os melhores do mundo. A arquitetura deveria dialogar, sem competir, com o entorno exuberante, e sua lógica construtiva seria, necessariamente, adaptada ao Brasil.

O programa estabelecido resultou de uma longa lista de necessidades definidas pelos músicos e pelo maestro da Orquestra Sinfônica Brasileira na época, Yeruham Scharovsky, e também por Cesar Maia, que queria uma sala para concertos sinfônicos adaptável a espetáculos de ópera. Assim, além da Grande Sala destinada a concertos sinfônicos e de ópera, o complexo musical do Rio de Janeiro disporia de sala para música de câmara/música popular/jazz, para música eletroacústica, camarins; salas de ensaio; salas para aulas de música; midiateca; depósito de instrumentos; escritórios da administração da OSB; três cinemas de arte, além de restaurante, cafés e lojas. No térreo, um parque com espelho d'água e plantas dos mangues da região abrangeria todo o terreno. E como a intervenção teria um forte impacto urbanístico na área, foi prevista a construção de túneis, passagens subterrâneas e vias para integração dos acessos de pedestres com os meios de transporte público, além de área de estacionamento para 650 veículos.

Um volume vazado e elevado
O conceito desenvolvido para o projeto - um terraço no alto, aberto para o entorno - incorpora elementos representativos da arquitetura moderna brasileira e surgiu naturalmente nos primeiros estudos. O arquiteto queria elevar a construção o suficiente para obter sua visibilidade e destacá-la ao longe. "Se ficasse no solo, o edifício desapareceria no conjunto", explica o arquiteto. Após vários estudos e incontáveis esboços e maquetes preparatórias, o projeto finalmente tomou forma e foi apresentado ao prefeito Cesar Maia em fevereiro de 2003, para aprovação. O estudo preliminar e o anteprojeto de arquitetura foram desenvolvidos pelo ACDP (Atelier Christian de Portzamparc), em Paris, enquanto os projetos básico e executivo foram feitos no Rio, pela equipe de Luiz Antonio Rangel (L.A. Rangel Arquitetos), sob supervisão dos arquitetos da ACDP do Brasil Projetos, filial carioca do ateliê parisiense.

Aberto à paisagem e à circulação do público, livre para as entradas de ar e luz, o grande belvedere se organiza entre duas imensas lajes com 90 m de largura e 200 m de comprimento - a da esplanada, a 10 m do solo, e a da cobertura, a 30 m. Entre as lajes, surgem os cinco blocos independentes, "casulos" de formatos variados e isolados acusticamente, que abrigam todos os itens do programa. Esses blocos receberam fechamentos de cascas de concreto protendido, em forma de grandes velas cilíndricas, com linhas oblíquas, que partem do solo como pilotis. Com uma abertura no centro, para permitir a circulação do ar, a grande laje de piso tem sob ela o jardim que envolve toda a área da edificação, inclusive as estruturas dos pilotis.

Agência Estado

As dimensões monumentais do projeto, e o programa extenso e variado, exigiram o engajamento de uma legião de operários - cerca de 3 mil nos momentos de pico -, e equipes de engenheiros e arquitetos com diversas especializações, como cálculo, estruturas, instalações prediais, acústica, cênica, luminotécnica, esquadrias, impermeabilização, transporte vertical, paisagismo e sistema viário.

Como o cálculo estrutural seria crucial para o projeto, Portzamparc fez questão de que fossem contratados especialistas brasileiros, que têm experiência comprovada e reconhecida em todo o mundo no uso de concreto protendido. A equipe escolhida foi a de Carlos Fragelli e Ulysses Cordeiro, com a consultoria de Bruno Contarini, todos com experiências em centenas de grandes obras de engenharia e de arquitetura.

RESUMO
Obra: Cidade das Artes do Rio de Janeiro
Local: Barra da Tijuca, Rio de Janeiro
Cliente: Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, Secretaria Municipal de Cultura
Área construída total 90 mil m² (edifício 68 mil m²)
Área do terreno 95,6 mil m²
Início da obra: julho de 2004
Conclusão: outubro de 2011

O consórcio construtor (formado pelas construtoras Andrade Gutierrez, Carioca - Christian Nielsen, Consórcio Cidade da Música e Telem), convidou, com a anuência dos calculistas, uma terceira empresa para fazer a verificação independente dos cálculos estruturais. Essa iniciativa é sempre necessária quando se trata de obra arrojada e de grande porte, como é o caso da Cidade das Artes. A revisão foi elaborada com métodos de cálculo diferentes, e resultou em ajustes pontuais.

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