Silvana Cambiaghi defende que o desenho universal traz obras melhores | Téchne

Entrevista

Silvana Cambiaghi defende que o desenho universal traz obras melhores

Acessibilidade

Giovanny Gerola
Edição 208 - Julho/2014
 

Marcelo Scandaroli

Silvana Cambiaghi
Arquiteta e representante da Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida (SMPED) na Comissão Permanente de Acessibilidade (CPA), é mestre em acessibilidade e desenho universal, e trabalha há mais de 25 anos na Prefeitura de São Paulo. Ministra aulas em cursos de extensão e outros regulares na área de arquitetura, mais precisamente voltados para preparar engenheiros e arquitetos à prática de projetos que conceituem espaços com foco no desenho universal e nas necessidades de possíveis usuários portadores de qualquer tipo de deficiência ou limitação física.

O Centro Cultural São Paulo foi palco do "Dia D", evento que promoveu a inclusão social e profissional de pessoas com deficiência e beneficiários reabilitados, com palestras, informações e orientações à comunidade ao longo de todo o dia 30 de maio. Organizado pela Secretaria da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida (SMPED), da Prefeitura de São Paulo, o evento contou com a participação de empresas que fizeram cadastro de currículos para deficientes candidatos a vagas de emprego, além de inscrições para cursos do Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec). A arquiteta e cadeirante Silvana Cambiaghi apresentou a palestra "Acessibilidade como Ferramenta na Inclusão ao Trabalho". Seu engajamento vai muito além de defender o direito de portadores de deficiência a acessar e usar espaços públicos e privados, mas tem sido, principalmente, mostrar que o desenho universal é um bem e uma necessidade para todo e qualquer cidadão. "Não só a construção civil, mas a própria cultura brasileira ainda tem muito a incorporar sobre acessibilidade, desenho universal e a qualidade de vida do cego, do cadeirante ou mesmo do idoso", afirma. Nesta entrevista, Silvana avalia como a acessibilidade se desenvolveu nos últimos dez anos, desde a última versão da ABNT NBR 9.050/2004 - Acessibilidade a edificações, mobiliário, espaços e equipamentos urbanos, e como tem se integrado à cultura da população brasileira e à prática de projeto entre engenheiros e arquitetos.

Há dez anos era mais difícil falar de acessibilidade, o assunto era conhecido por poucos. Com o tempo, isso vem se modificando, sendo incorporado ao discurso da construção civil. É um reflexo das mudanças culturais? Ainda temos muito a incorporar?
Ainda há muito a incorporar. Muito do que mudou foi em termos de evolução legislativa. E as leis trouxeram uma cultura de direitos, mas isso não evolui por toda a massa da população, nem mesmo entre todos os engenheiros e arquitetos. Uma característica que mudou bastante é que hoje já se vê o tema a partir de outro ângulo. Antes, a abordagem era mais protecionista, calcada na ideia da pessoa portadora de deficiência. Com dez anos de estudos em acessibilidade e desenho universal, e uma melhoria geral de qualidade de vida para todos (não só para o deficiente), essa ideia vai sendo incorporada com maior facilidade. E isso acontece porque, uma vez que há redução de obstáculos que dificultam a mobilidade, de riscos ao idoso por falta de rampas ou corrimãos, e de causas de acidentes, torna-se mais claro que incorporar acessibilidade de forma integrada aos projetos representa melhora da qualidade de vida para qualquer um. Esta mudança de ótica, paralela à evolução legislativa, revela uma acessibilidade mais madura, mais bem aplicada e difundida que há dez anos.

O que se pode fazer, em termos práticos, para aprofundar essa incorporação de valores? Mais leis?
Não, já temos leis suficientes. Algumas não são tão punitivas quanto poderiam ser, mas é preciso que as leis prevejam mecanismos de sanção. Em São Paulo, por exemplo, um estabelecimento comercial não consegue licença de funcionamento sem apresentar o certificado de acessibilidade. Quer dizer, a sanção não precisa ser uma multa, pode ser simplesmente a não autorização do uso do edifício até que ele esteja adaptado e acessível. Por outro lado, também falta muito a ser feito no lado da formação de profissionais de projeto. Nosso corpo docente mais tradicionalista ainda tem certa dificuldade em ensinar a acessibilidade de forma integrada. Primeiro, o projeto é pensado e desenvolvido, para só depois lembrar que era preciso atender à norma, e arruma-se o que já está pronto. Isso acontece tanto na engenharia quanto na arquitetura, nos cursos de design de interiores e na formação de profissionais de obras. Em algumas universidades até há cadeiras optativas a tratar do tema, mas acredito ser importante entrar na grade obrigatória dos primeiros anos dos cursos, não só como elemento normativo, mas enquanto conceito amplo e global - a acessibilidade como uma das vertentes da sustentabilidade.

Em termos de construção, vejo mais um retrocesso do que uma evolução, pensando, por exemplo, que os apartamentos dos anos 1970 tinham banheiros mais espaçosos

A Secretaria tem ações profissionalizantes?
Nós temos um curso de certificação em acessibilidade, no qual priorizamos nosso quadro técnico - engenheiros e arquitetos da própria prefeitura e empresas que trabalham conosco ou com outros órgãos públicos, a exemplo de profissionais do Banco do Brasil. O número de vagas para pessoas de fora é reduzido, cinco por turma, mas o curso é gratuito e seu foco é o desenho universal. Ensinamos também o que a lei prescreve e como deve ser atendida.

Há novas tecnologias nessa área?
A cidade de São Paulo tem grandes avanços. Acessibilidade também é mobilidade urbana. A maioria dos ônibus da nossa frota já tem piso baixo, o que facilita entrada e saída com rapidez, principalmente dos idosos, e também rampas para o cadeirante. São adaptações que o CPA ajuda a desenvolver e a implantar.

Há sistemas construtivos novos?
Fazer construção flexível, por exemplo, com gesso acartonado nas paredes, traz possibilidades de mudança e adaptação ao longo dos anos, segundo as novas necessidades do usuário. É mais flexível que a alvenaria estrutural, que fecha o layout com rigidez. Em termos de tecnologias em acabamentos e automação, o único problema continua sendo o custo da tecnologia de ponta, que no Brasil é altíssimo. Ela só é adotada em residências de luxo, como controlar a casa inteira por botões - janelas, cortinas, iluminação, abertura e fechamento de portas. Na verdade, em termos de construção, vejo mais um retrocesso do que uma evolução, pensando, por exemplo, que os apartamentos dos anos 1970 tinham banheiros mais espaçosos, enquanto hoje há muitas pessoas que eu não poderia visitar em casa. As portas eram de pelo menos 70 cm de vão, quando não de 80 cm. Hoje, os apartamentos têm terraços, mas com portas de banheiros de 60 cm. Pessoas mais obesas não conseguem usá-los, isso é antiacessível e é uma involução.

Mas o que diz a norma?
Isso é o pior, a norma indica 80 cm, mas ela vale onde a lei se faz cumprir. Se mesmo em banheiros públicos se adotam portas de 60 cm, imagine nos residenciais. Aí entra a importância da consciência do profissional projetista. E, para mudar, ele só precisa imaginar que um dia seu pai vai envelhecer, que ele mesmo vai envelhecer, que talvez possa vir a ter dificuldades de se locomover e que talvez ainda esteja morando naquele imóvel.

E como fica o papel do projetista?
Por mais que ele não consiga se colocar na pele do outro, quando faz um layout a partir do desenho universal, vê como é possível ficar bonito e nunca mais conseguirá pensar o projeto de outro jeito. Porque as soluções são muito melhores!

Você nos daria exemplos?
Muitos vêm estudar os projetos das escolas municipais, que são avaliados pela CPA. Sentíamos inicialmente uma resistência enorme dos profissionais quanto à obrigação de ter banheiros acessíveis em todos os pavimentos dos edifícios ou de não haver degraus para o acesso de professores às salas. Mas os projetos agora são muito melhores que antes, porque já incorporaram esses elementos. Os profissionais entendem a ideia, já que os alunos precisam usar todos os ambientes da escola - e nunca mais tivemos escolas sem rampa, sem elevador ou plataformas, ou sem pelo menos um banheiro acessível em cada pavimento.

Sobre custos, ainda se pode afirmar que essas adaptações deixam o projeto mais caro?
Se as adaptações são pensadas desde a partida para o projeto, o custo é exatamente o mesmo. A questão é só saber projetar.

 

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