Representante brasileiro do conselho internacional de edifícios altos fala sobre desafios técnicos e econômicos deste tipo de projeto | Téchne

Entrevista

Representante brasileiro do conselho internacional de edifícios altos fala sobre desafios técnicos e econômicos deste tipo de projeto

Antônio Macedo Filho também comenta as tendências em sistemas construtivos e tecnologias

Renato Faria (colaborou Jamila Venturini)
Edição 209 - Agosto/2014
Foto: Marcelo Scandaroli

ANTÔNIO MACEDO FILHO
Representante no Brasil do Council on Tall Buildings and Urban Habitat (CTBUH), é arquiteto e Master em Edifícios Inteligentes e Arquitetura Bioclimática pela Universidad Politécnica de Madrid. É credenciado Leed AP Building Design and Construction (BD+C) junto ao United States Green Building Council e diretor da EcoBuilding Consultoria, empresa de consultoria e desenvolvimento profissional em arquitetura e construção sustentável. Atua como professor e coordenador do MBA em Construções Sustentáveis do Instituto Brasileiro de Educação Continuada/Universidade Cidade de São Paulo/Green Building Council Brasil e como consultor para sustentabilidade, tendo sido líder da área de Green Building da Cushman & Wakefield para a América do Sul de 2012 a 2014.

O atual edifício mais alto do Brasil é o Palácio W. Zarzur, também conhecido como Mirante do Vale, em São Paulo. Seus 170 m de altura se impõem no Vale do Anhangabaú desde 1967. Mas, segundo o Conselho de Edifícios Altos e Habitat Urbano (CTBUH, na sigla em inglês), a marca será superada em breve por edifícios de João Pessoa e Balneário Camboriú (SC). Primeiro, pelo Tour Genève, na capital nordestina, que terá 182 m de altura e será concluído em 2015. A cidade do litoral catarinense, por sua vez, deve ultrapassar a marca já em 2016, com a conclusão do edifício Infinity Coast, de 237 m. Ali mesmo deve ser erguido o novo recordista em altura no País: o One Tower, ainda em projeto e sem previsão de entrega, terá 280 m de altura. Para o arquiteto Antônio Macedo Filho, representante do CTBUH no Brasil, a inexistência de edifícios superaltos no País (com mais de 300 m) se deve a fatores econômicos, e não técnicos, já que a indústria nacional de materiais e sistemas construtivos estaria suficientemente desenvolvida para a realização de obras desse tipo. Na entrevista, ele chama a atenção para as particularidades da atual tendência de construção de edifícios altos nas duas cidades, assim como para os problemas urbanos que a falta de planejamento nesse tipo de empreendimento pode causar. "A impressão que eu tenho é que, muito provavelmente, nós estamos criando alguns gargalos", afirma. Para ele, esse tipo de construção, se bem planejado, pode trazer melhorias significativas relacionadas à sustentabilidade em cidades e regiões densas. "Edifícios altos são indicados para áreas que dispõem de infraestrutura, pois permitem a utilização da mesma eficiência dos serviços e a diminuição dos deslocamentos de áreas residenciais para comerciais e vice- versa",

Tecnicamente, qual a definição de edifício alto?
Nós temos que lidar com realidades muito diversas, por isso a definição do Conselho de Edifícios Altos e Habitat Urbano (CTBUH, na sigla em inglês) segue vários critérios. Um deles tem a ver com o contexto urbano: um edifício de 20 andares localizado numa região onde só há casas pode ser considerado um edifício alto, mas não é em um centro onde há muitos outros edifícios com a mesma altura. Também existe uma questão de proporções: um edifício muito alto e largo seria considerado "menos alto" do que outro esbelto e com muitos andares. Também é possível classificá- los segundo os sistemas construtivos. O uso de estruturas de contraventamento, por exemplo, pode justificar a caracterização de um edifício como alto, assim como certas soluções de transporte vertical. E, finalmente, há a classificação segundo altura: um edifício com 100 m é alto em qualquer lugar, mas também há edifícios superaltos, com mais de 300 m de altura, e mega-altos, com mais de 600 m de altura, como o Burj Kalifa, de Dubai.

Por que o interesse em edifícios altos cresceu recentemente no Brasil?
A verticalização é uma tendência porque ajuda a viabilizar negócios imobiliários e é útil para o planejamento urbano. Cidades verticalizadas tendem a favorecer o uso da infraestrutura de serviços públicos e isso está associado à questão da sustentabilidade. Edifícios altos são indicados para áreas que dispõem de infraestrutura, pois permitem a utilização da mesma eficiência dos serviços e a diminuição dos deslocamentos de áreas residenciais para comerciais e vice-versa. Não faz muito sentido construir edifícios altos em áreas onde não há serviços. O gasto é maior, assim como a energia e as emissões. É o caso do Burj Kalifa, que foi construído no deserto, mas que criou um vetor de crescimento. Não é um projeto sustentável, mas imediatamente você cria uma demanda por serviços. É uma economia toda que é movimentada e faz com que isso se torne viável.

Em São Paulo há mais de 200 edifícos com mais de 100 m de altura, uma massa construída como a de poucas cidades no mundo. O que nós não temos são edifícios muito altos por uma questão de legislação e de viabilidade econômica

O edifício Mirante do Vale, em São Paulo, é o mais alto do Brasil desde 1967, com 170 m. Nos próximos anos, segundo o CTBUH, a marca será superada, após a construção do edifício Tour Geneve (182 m), em João Pessoa, do edifício Infinity Coast (237 m), em Balneário Camboriú (SC), previsto para 2016. Quais as razões técnicas ou econômicas para o Brasil ter deixado de construir edifícios mais altos?
No Brasil há muitos edifícios altos. Em São Paulo há mais de 200 edifícos com mais de 100 m de altura, uma massa construída como a de poucas cidades no mundo. O que nós não temos são edifícios muito altos por uma questão de legislação e de viabilidade econômica. É preciso uma valorização muito grande do metro quadrado do terreno e do empreendimento para se justificar a viabilidade econômica de um edifício muito alto.

Quanto mais altos os edifícios, especialmente os residenciais, maior tende a ser a demanda por vagas de garagens. O atendimento dessas necessidades é viável do ponto de vista técnico e econômico?
Em São Paulo, uma legislação que define o número de vagas em relação à área foi criada nos anos de 1950, quando a preocupação era construir garagens para que os carros não ficassem nas ruas. Você tem que gastar uma fortuna criando subsolos para obedecer a uma legislação que não faz sentido, principalmente numa área onde já existe transporte de qualidade. Uma das referências em edifícios altos sustentáveis é o Bank of America Tower, em Nova York, nos Estados Unidos, um edifício ocupado por cerca de 10 mil pessoas e que não tem uma vaga de garagem. Lá é possível, aqui não é, mas se alguém quisesse propor, por que não? Eu não vejo sentido nessa legislação e acho que ela atrapalha o desenvolvimento de edifícios altos no Brasil, porque ela se repete em outras cidades.

Por que Balneário Camboriú e João Pessoa despontam como cidades com uma maior concentração de edifícios altos no Brasil nos últimos anos?
São situações muito peculiares de legislação urbanística e de ascensão do poder de compra do mercado imobiliário. Muitos paulistanos têm adquirido imóveis em Balneário Camboriú e isso fez com que o metro quadrado se valorizasse de forma exagerada. Por outro lado, a legislação autorizou a construção de edifícios muito altos com compensações que os incorporadores entenderam que eram viáveis. Em João Pessoa, a situação é semelhante: há um aumento grande da renda e a particularidade de ser uma cidade com muitos vazios urbanos. Como os terrenos são grandes e a legislação urbanística permite, eles têm conseguido viabilizar empreendimentos - especialmente residenciais - de grande altura, de até 70 andares.


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