Números do desperdício | Téchne

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Números do desperdício

Mariuza Rodrigues
Edição 53 - Agosto/2001

Pesquisa nacional mostra quais são os principais focos de perdas de materiais nos canteiros e quebra velhos mitos
O fantasma do desperdício assombra a construção civil brasileira. Dizia-se antes que de cada três prédios construídos, um quarto prédio era perdido. Mito ou realidade? Era impossível saber, pois não existiam estatísticas que pudessem confirmar ou desmentir a afirmação. Hoje já se sabe que as perdas de materiais - que viram entulho ou ficam incorporados à obra - chegam a 8%. "Ainda é muito", concorda Vahan Agopyan, vice-diretor da Escola Politécnica da USP, "mas está longe daquele número aleatório que se difundiu na década de 80". Vahan foi um dos idealizadores da pesquisa "Desperdício de Materiais nos Canteiros de Obras" (ao lado dos professores Ubiraci Espinelli Lemes de Souza, José Carlos Paliari e Artemária Coêlho), trabalho coordenado pelo Departamento de Engenharia de Construção Civil da Escola Politécnica da USP. Com financiamento da Finep (Financiadora de Estudos e Projetos, do Ministério da Ciência e Tecnologia), participação do Senai/Nordeste (Serviço Nacional de Aprendizagem) e do ITQC (Instituto Brasileiro de Tecnologia e Qualidade na Construção), engajamento de 15 universidades de vários Estados, além do apoio de entidades de classe e da adesão de uma centena de construtoras, a pesquisa constitui a única e, por enquanto, a melhor amostragem das perdas nos canteiros do País. Um dos méritos do trabalho, segundo Vahan, foi a formulação de uma metodologia de coleta de dados e avaliação sobre o consumo de materiais e componentes em obra. Os pesquisadores visitaram canteiros e checaram os volumes dos materiais solicitados e os volumes efetivamente utilizados em atividades previamente definidas. Os resultados dessa pesquisa, assim como a metodologia a que deu origem, estão disponíveis na internet (www.pcc.usp.br/pesquisa/perdas). "O mais importante é que se conseguiu elaborar um método adequado e viável de avaliação do consumo de materiais", diz Vahan. Nesta entrevista, o pesquisador constata que as perdas não estão diretamente relacionadas à utilização de sistemas construtivos convencionais. O pesquisador critica ainda a visão que relaciona desperdício aos países pobres e empresas de pequeno porte. "Trata-se de uma visão equivocada proveniente da falta de conhecimento da construção civil em outros países."

O que motivou essa pesquisa? Quantas obras foram pesquisadas?
Na década de 90, dizia-se que a cada três prédios construídos, um se perdia. Isso foi muito difundido, principalmente na esfera governamental. Eram informações empíricas, incompletas, até mesmo tendenciosas. Um pesquisador dizia que as perdas chegavam a 1/3, outro dizia que não passavam de 0,2%. Essas pesquisas se pautavam sobre estudos de uma só obra. O número de 30% de perdas saiu de uma tese defendida aqui na Poli [Escola Politécnica da USP] pelo Flávio Augusto Picchi. Mas ele se referia a perdas financeiras, incluindo o custo do retrabalho, ou seja, dinheiro. Era necessário desenvolver uma pesquisa fundamentada em estatísticas confiáveis e de abrangência nacional. Assim surgiu esse trabalho. Uma vez formatado, obtivemos financiamento da Finep, por meio do Programa Habitare. No início, foram sete universidades participantes, mas este número chegou a 15, sem contar a Politécnica. O sistema Senai/Nordeste também aderiu. Atuamos em 100 canteiros do Maranhão ao Rio Grande do Sul. Sem dúvida, conseguimos realizar a mais completa radiografia da construção civil brasileira até hoje.


Afinal, qual é então o índice médio de desperdício nas obras brasileiras?
O desperdício médio está entre 7% e 8%, o que não é algo tão absurdo. Há construtoras que conseguem índices mais baixos e outras que estão bem acima disso. Esse número reflete as perdas de materiais que se tornaram entulho ou que ficaram incorporados na obra. Mas não leva em conta a despesa de mão-de-obra que essa perda implica, além da despesa para retirar esse entulho.

Todos os materiais foram pesquisados ou apenas alguns?
O projeto previa o estudo de 18 tipos de materiais: areia, cimento, pedra, concreto produzido em obra, concreto usinado, aço, chapas de madeira compensada, blocos e tijolos, cal, argamassa total ou parcialmente produzida no canteiro, eletrodutos, condutores, tubos para instalações hidrossanitárias, telhas cerâmicas e de fibrocimento, placas cerâmicas, revestimento têxtil e tintas. Não foi possível o estudo das chapas de madeira e telhas cerâmicas. Mas incluímos o gesso e o saibro, este último mais comum na região Nordeste. Na parte de serviços, foram estudadas a execução da estrutura de concreto, armação, alvenarias, revestimentos interno e externo, contrapisos, instalações elétrica e hidrossanitária, revestimentos cerâmicos (pisos, paredes internas, fachadas), revestimentos em gesso, pintura externa, pintura interna e revestimento têxtil, incluindo diversas variantes na execução destas etapas.

Qual foi a principal revelação desse trabalho? O material mais desperdiçado é mesmo o cimento?
O que causou mais preocupação foi o caso da argamassa, que apresenta um descontrole muito significativo. Em algumas obras, as perdas chegavam a quase 50%. Ou seja, aproximadamente metade da argamassa era "jogada fora". As falhas começam pela concretagem, exigindo acertos no acabamento. São casos extremos em que se gastava mais cimento em argamassa para consertar do que para fazer uma laje de concreto. No caso do emboço interno, por exemplo, a espessura excessiva pode ser uma falha da execução do próprio revestimento, mas normalmente é resultado do acerto de uma falha na execução da alvenaria. Já no cimento observaram-se perdas de 8% a 288%. Mas ele não é o vilão. É que o material se perde dentro das argamassas de revestimento (paredes e contrapisos), concretos, argamassas de assentamento de alvenaria e revestimentos, no transporte interno da obra e na armazenagem.


Existe alguma relação entre o tipo de fôrma e o maior ou menor desperdício do concreto como se diz nos canteiros? Isso foi comprovado?
O sistema de fôrmas é, sem dúvida nenhuma, um dos principais fatores que influem nas perdas do concreto usinado. Com um sistema de fôrmas mais eficiente (metálico) observamos perdas menores (média de 4% contra 9% no caso de fôrmas de madeira). Como houve grande evolução do sistema de fôrmas para concreto nas últimas décadas, provavelmente os valores obtidos no estudo devem ser bem menores do que os valores do passado. Mas a verdade é que um sistema de fôrmas deficiente acarreta o aumento das perdas de concreto. A mediana das perdas de concreto em lajes subiu de 6% - quando os erros de geometria nas peças eram menores do que 5% - para 11%, quando os índices de erros ultrapassavam a casa dos 5%. No caso das vigas, também temos um crescimento significativo da mediana das perdas, de 7% para 10% quando os erros de geometria passam de 2,5% (valores considerados aceitáveis para esse tipo de peça) para valores maiores. Alguns costumes estavam arraigados. Uma construtora costumava comprar 10% a mais de concreto usinado já prevendo algum problema na fôrma. Ou seja, a empresa presumia que ia desperdiçar esse volume de material.

Grande parte do desperdício do concreto ocorre na etapa de lançamento. O que a pesquisa mostrou sobre isso?
A mediana das perdas de concreto nas obras com sistemas de transporte tradicional (gruas e jericas) foi de 8% e a de obras com bombas foi de 9%, o que revela que utilizaram o equipamento incorretamente. Há perda inerente ao processo - o material que fica nos mangotes no fim de uma etapa de concretagem. Por isso o equipamento deve ser utilizado quando há volumes grandes e concretagem contínua, ou quando não é possível o uso da grua por motivos técnicos.

Os métodos de recebimento de materiais podem elevar ou diminuir as perdas? Como ocorrem os desperdícios nessa etapa?
O recebimento e transporte do material na obra são questões fundamentais para conter os desperdícios. Hoje está se tornando rotina receber o material de maneira mais adequada, às vezes em contêineres, o que reduz as perdas por armazenamento. É o caso de blocos para alvenarias, que podem ser fornecidos em paletes, protegidos por embalagem de plástico. Algumas construtoras se preparam para receber o cimento em ambientes apropriados; outras implementam procedimentos para receber o aço, separando-o por bitolas e protegendo-o contra corrosão. Os materiais de revestimento estão sendo melhor acondicionados. Era comum amontoá-los em um canto, e ver peças caindo e quebrando. São cuidados que estão sendo tomados de uma maneira mais rotineira. Mas é preciso combinar soluções. No caso dos blocos, por exemplo, a mediana entre as empresas que empregavam paletes ou carrinhos específicos variou apenas 1% em relação àquelas que utilizavam outros recursos (medianas de 12% e 13%, respectivamente). Isso ocorreu porque uma parte da movimentação ainda era realizada de modo inadequado.


O fornecimento, então, é um dos fatores de perda?
Eu diria que sim. Uma coisa é o fornecedor que entrega um bloco bem embalado, em cima do estrado. Ou seja, no armazenamento, se reduz a possibilidade de quebra de peças. Mas isso tem um custo. O fornecedor vai cobrar pelo bloco embalado. Então, essa é uma decisão que depende da construtora, da região em que ela está, da realidade local. Na construção civil, cada empreendimento pode representar uma realidade. Se a questão é pressa, a empresa precisa comprar da forma mais simples possível. Ou, se há mais tempo, ela pode preparar um planejamento mais cuidadoso. Então, essas decisões dependem muito da característica de cada obra. Há casos em que a empresa tem dinheiro e precisa construir rápido. Noutros, ela precisa se capitalizar para finalizar a obra. Essas variáveis são importantes. A gestão na construção civil é complicada, porque o processo de trabalho muda de obra para obra, de acordo com os prazos e as exigências de cada uma. Então, a relação com fornecedores também acaba sendo diferente. Tem fornecedor que não tem condições de atender bem à exigência de uma obra rápida, mas pode se adequar a prazos mais dilatados. Por isso, os manuais de construção só podem dar a diretriz geral.

Como o processo de orçamentação pode contribuir para reduzir essas perdas?
Se a compra for feita pelo preço mínimo, então a empresa poderá ter problemas. Mas se os produtos forem bem especificados - e hoje as modernas técnicas de gestão possuem metodologias apropriadas para fazer compras, tem até publicações sobre esse item - isto é, se a especificação for mais detalhada, é possível obter o melhor preço. Uma gestão moderna da construção civil prevê uma especificação melhor dos materiais, o que leva a uma compra mais técnica e, em conseqüência, com certas exigências e garantias. Não é menor preço pelo menor preço. As comprar, passam a ter restrições técnicas e isso pode levar a uma melhoria geral do processo.

Hoje o desperdício se tornou uma questão ambiental. Não há mais lugar para jogar o entulho. As construtoras estão atentas a isso?
Nos grandes centros, existe o hábito de contratar o caçambeiro para retirar os restos de obra. Só que a legislação está mudando. Faço parte de um grupo de trabalho junto ao Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente) que está elaborando uma legislação sobre o tratamento do entulho da construção, e que prevê uma co-responsabilidade entre o gerador e o transportador. Essa legislação deve estar pronta até o final do ano. De qualquer maneira, entulho significa custo.

O senhor poderia apontar alguns procedimentos que ajudam a reduzir as perdas?
Não tem segredo. Se a construtora faz a argamassa de manhã para usar o dia todo, com certeza vai perder material. É melhor fazer a argamassa duas vezes por dia. Se ao receber o bloco, ele for armazenado em um ponto do canteiro para depois ser transportado para outro lugar, as chances de perdas são maiores. É melhor levar direto para o andar onde vai ser utilizado. Antes da concretagem é bom medir cuidadosamente a fôrma, para não gastar mais do que o necessário. Se a alvenaria estiver saindo torta, vai ser preciso engrossar a argamassa. Os pedreiros devem ser treinados. São práticas simples, que não exigem nenhum grande investimento a não ser uma melhor gestão dos processos.


Como controlar melhor o consumo dos materiais no canteiro?
Principalmente com uma boa gestão. Isso é um conceito relativamente novo. Os instrumentos de gestão modernos estão na obra há pouco tempo. Um diagrama de Gantt era decoração. A gestão permite melhor organização do canteiro, em conseqüência reduz as perdas de materiais e otimiza o emprego da mão-de-obra.

Quanto custa reduzir as perdas? Vale a pena?
Teoricamente, o investimento inicial em gestão dos processos é um pouco elevado, mas se reverte na otimização da produção e com certeza na redução dos desperdícios e custos. É claro que ao comprar um bloco que é fornecido adequadamente, isto tem um custo. Mas é preciso olhar a obra como um todo, buscando o melhor gerenciamento dos recursos. Para isso é preciso contar, por exemplo, com uma especificação mais detalhada dos materiais. É preciso realizar compras mais técnicas. Ou seja, são investimentos de melhoria de processos que continuarão a ser empregados no futuro. E, é claro, como pesquisador, eu defendo o uso de sistemas mais avançados de gestão e a utilização de sistemas construtivos industrializados. O País precisa desse investimento para reduzir o déficit habitacional, produzindo em escala e a preços mais competitivos.

Seguindo este raciocínio, construtoras que possuem sistemas de gestão modernos e adotam tecnologias construtivas avançadas estão menos sujeitas ao desperdício. O perfil das construtoras pesquisadas confirma isso?
Cerca de 50% das empresas pesquisadas são de pequeno porte; 14% de grande porte; 21% de médio porte e 14% microempresas. A maior parte, 71%, se concentra na incorporação e construção, 10% atua na área de obras públicas e 17% executa obras para terceiros. Pensava-se que as empresas de maior porte tinham melhor controle das perdas do que as demais. Não é bem assim. O estudo mostrou que uma empresa que domina bem uma tecnologia tem menor perda, seja utilizando sistemas convencionais, seja empregando tecnologia moderna. Esta foi uma constatação importante.


Isso de certa forma entra em conflito com a visão de que a construção civil brasileira seria um setor atrasado porque adota métodos construtivos há muito tempo abandonados em países desenvolvidos.
Certa vez encontrei um colega que havia ido para a França. Ele disse que viu numa caçamba apenas embalagens e que não tinha resíduos. Como membro do CIB (International Council for Research and Innovation in Building and Construction) já visitei cerca de 50 países, inclusive a França. E lá tem entulho. O pessoal faz aquelas visitas técnicas, turismo internacional disfarçado, e volta falando mal da construção brasileira. Essa correlação entre desperdício e país de terceiro mundo, isto sim, é coisa de subdesenvolvido. Quando se trata de uma tecnologia de montagem, como se pratica nos Estados Unidos, por exemplo, não há desperdício. Mas quando se trata de uma obra pesada, onde é preciso fazer concretagem, montagem e construção in loco, então surgem as perdas. É um problema quase inerente ao processo. Nos países onde se utiliza muito alvenaria, como Inglaterra, Portugal, as características são semelhantes às nossas. Não quero dizer que estejamos às mil maravilhas.

As empresas estudadas adotavam na época da pesquisa algum programa de melhoria de processo?
As empresas pesquisadas não estavam necessariamente envolvidas em algum programa da qualidade. Uma parte delas, 32%, já havia adotado programas de segurança no trabalho, 21% tinha instituído a padronização de processos, 18% adotava algum programa de alfabetização, 5% tinha implementado normas ISO 9000, 20% programas 5S, e 1% um sistema de gestão da qualidade. Mas, de modo geral, as ferramentas da gestão têm influência positiva na obra e implicam a redução das perdas. No entanto, é possível reduzir as perdas sem ter ISO 9000.

Qual foi a grande dificuldade de conduzir a pesquisa?
O desafio maior foi criar uma metodologia específica, porque esse tipo de levantamento nunca havia sido feito antes, no Brasil e em todo o mundo. O nosso objetivo não se limitava apenas a detectar as perdas. Tínhamos de encontrar as causas.


O senhor poderia explicar um pouco a metodologia utilizada? Talvez algumas construtoras tenham interesse em conduzir uma pesquisa semelhante de uso interno.
O primeiro passo era conhecer o fluxo do material dentro da obra e identificar as possibilidades de ocorrência de perdas. Por exemplo, o fluxograma do concreto usinado contempla as etapas de recebimento, transporte e aplicação. Já o do cimento inclui, além dessas etapas, a de estocagem e processamento intermediário para a produção de argamassas ou concretos. Além disso, a argamassa pode ser utilizada em vários serviços simultaneamente. A partir destas peculiaridades, a medição das perdas podia ser feita levando em consideração todas as etapas do fluxo dos materiais ou apenas uma parte dele. Dessa forma, era possível designar indicadores de consumo globais ou parciais, ajudando a analisar melhor as estatísticas. Para cada uso do material em um determinado serviço, foi elaborado um conjunto de planilhas e procedimentos para se obter esses indicadores.

Os pesquisadores passavam o dia na obra?
Nosso principal compromisso era não atrapalhar a rotina do canteiro, premissa básica trazida pelo professor Ubiraci Lemes, que foi aos Estados Unidos estudar e conhecer os sistemas de controle ali utilizados. A presença de um controlador inibe, atrapalha. Por isso os pesquisadores não ficavam no canteiro o dia inteiro. A aplicação da metodologia consistia no planejamento da coleta e implicava, entre outras atividades, o treinamento das equipes, o envolvimento do pessoal da obra e da empresa, o entendimento e quantificação dos serviços a serem estudados. Na fase seguinte, era realizada a coleta de dados no canteiro, quando os volumes dos materiais que entravam e saíam da obra eram checados pelos pesquisadores. Posteriormente, os dados eram encaminhados para a coordenação, tabulados e analisados. É importante destacar que o trabalho focou as perdas físicas, tendo como referência as prescrições de projeto. Perda é todo o material que se gastou a mais que o necessário. Uma parte substancial das perdas fica incorporada na obra, não é entulho.

Há maior consciência hoje sobre o problema do desperdício?
O mercado está mais competitivo. As margens de lucros estão reduzidas. E por isso o setor está começando a avaliar melhor este aspecto. Já existem muitos projetistas e arquitetos preocupados com a questão do consumo energético, por exemplo, porque sabem que isso vai se refletir no valor do imóvel. Há também maior preocupação com a otimização da estrutura. A verdade é que as perdas reduzem a margem de lucros. Um exemplo: se o lucro de um empreendimento estiver na casa dos 8% e essa obra tiver um índice de 3% a 4% de perdas de materiais, o desperdício pode representar 50% do lucro.
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