Para utilizar água de chuva em edificações | Téchne

Projetos

Para utilizar água de chuva em edificações

Luiz Ciocchi
Edição 72 - Março/2003
Uso de cisternas e filtros de água em condomínios garante economia, mas a água pluvial não pode ser misturada com a água da concessionária

Apesar de não ser indicada para o consumo direto, a água de chuva, se for previamente filtrada, pode ser utilizada para descargas sanitárias, reserva de incêndio, rega de jardins e controle de poeira. O efeito da retenção nas cisternas também diminui o problema das canalizações, galerias e estações de tratamento de esgoto, sempre muito prejudicadas pelas fortes chuvas. A melhor forma de armazenar água de chuva é o reservatório subterrâneo. Sem luz e calor, retarda-se a ação das bactérias. Uma cisterna de qualidade pode ser pré-fabricada, por exemplo, tanques de polietileno ou concreto, esse último podendo neutralizar a acidez da água de chuva. A água captada e guardada pode ser filtrada no local de uso e tratada com facilidade (ver ilustração). Numa estiagem prolongada, deve estar prevista a realimentação com água potável, diretamente na cisterna ou por uma ligação no filtro.

Para reutilizar a água, o ideal é que o reservatório fique no alto da edificação, logo abaixo do telhado, recolhendo a chuva e direcionando-a diretamente para os banheiros. Dessa forma, economiza-se também energia, já que não é necessário bombear água para a caixa d'água. É importante lembrar que a água da chuva não é água tratada e não deve ser misturada com a água da rua. "Tubos, torneiras e a caixa d'água devem ostentar inscrições que alertam não se tratar de água tratada, não podendo envolver o consumo direto, a preparação de alimentos e a higiene pessoal", lembra Jack Sickermann, gerente da 3P Technik - Gerenciamento Sustentável da Água de Chuva.

A instalação de um sistema de aproveitamento de água de chuva em edificações assemelha-se à execução de sistemas do tipo faça você mesmo. "A maior parte dos componentes são encontrados em qualquer obra, como tubos, calhas e cisternas", diz Jack Sickermann. Alguns componentes auxiliares completam o processo de reaproveitamento da água:

Filtro
A função da peça é eliminar galhos, folhas e outros detritos. Resíduos maiores são levados diretamente para a galeria pluvial ou podem ser guardados em uma cesta para compostagem posterior. O corpo do filtro é feito de polietileno. O desenho do miolo filtrante foi desenvolvido para que, em condições normais, somente 5% da água que passa se perca, levando os detritos embora. A água passa ainda por uma tela (malha especial de aço inox) que precisa ser inspecionada e limpa antes e depois da época de chuvas, para retirar areia e outras substâncias que podem obstruir a passagem da água. O filtro processa até 9 l/s e, para telhados maiores, existem filtros com capacidade de processamento mais potente.

Amortecedor (freio d'água)
O equipamento evita que a água vinda do filtro bata na superfície ou entre com muita pressão no tanque ou na cisterna, já que a manutenção da qualidade da água estocada depende da ausência de turbidez e da boa decantação. Por meio de um tubo de 100 mm de diâmetro, a água vinda do tubo se expande e perde força, o que não revolve o material sedimentado no fundo da cisterna.

Conjunto de sucção flutuante - O conjunto é formado por uma conexão para a bomba, uma mangueira flexível, uma válvula anti-retorno, um filtro de tela e uma bóia, que mantém a entrada com o filtro sempre perto da superfície, local onde a água é mais límpida.

Sifão - Atua como selo hidráulico, o que evita a entrada de odores do lado de fora e impede a passagem de roedores. A barreira se faz por meio de uma lâmina espiral ou pelo desenho do próprio sifão. É recomendável prever no projeto que a cisterna fique ao menos duas vezes por ano totalmente cheia, para que o sifão possa limpar o espelho d'água da cisterna, onde se acumulam pólens das flores e substâncias oleosas.

Mais informações: Abcmac (Associação Brasileira de Captação e Manejo da Água de Chuva): www.abcmac.com.br




Funcionamento do sistema de aproveitamento de águas pluviais numa edificação unifamiliar

O caminho mais simples é captar a chuva que cai sobre o telhado, dirigindo-a pelas calhas e tubos até o filtro que separa a água de chuva das impurezas. Depois vai à cisterna ou ao tanque subterrâneo. O filtro é muito importante, evitando a passagem de sujeira, como acontece quando se improvisa com um pano ou uma tela qualquer. Para não turbilhonar a sedimentação no fundo da cisterna, conduz-se a água filtrada por um tubo até o fundo, que brota do "freio d'água", sem fazer ondulações. Estocada ao abrigo da luz e do calor, a água mantém-se sem bactérias ou algas. Como nos sistemas comuns, uma bomba de recalque joga a água para uma caixa no telhado, que abastece as descargas e as torneiras nas áreas externas, constituindo um segundo sistema hidráulico separado da água da rua. Para retirar a água mais limpa de qualquer cisterna, deve-se usar um conjunto flutuante de sucção, que mantém o ponto de sucção sempre a poucos centímetros abaixo da superfície.

Norma torna obrigatória retenção de água de chuva em São Paulo

O matemático e inventor Elair Antônio Padin é autor do projeto que cria as "piscininhas". A norma 13276/02 torna obrigatória em São Paulo a execução de reservatório para as águas coletadas por coberturas e pavimentos nos lotes, edificados ou não, que tenham área impermeabilizada superior a 500 m². A lei só vale para novas edificações. O mecanismo, além de conter a água e evitar enchentes, gera economia ao possibilitar o uso da água.

Pelos cálculos de Padin, nos meses de chuva, os prédios de até 13 andares são capazes de coletar mais água no telhado do que gastam com as descargas nos banheiros. Na Alemanha vários municípios incentivam os construtores e o país instala cerca de 100 mil reservatórios/ano. Para exemplificar os benefícios que seu projeto traria à cidade, Padin cita o Shopping Center Norte, na zona Norte de São Paulo. "São 400 mil m² de área impermeável. A chuva que cai sobre ele é capaz de inundar 2,5 km do rio Tietê." Outro exemplo são os três mil postos de gasolina que existem na capital paulista. Cada posto tem, aproximadamente, 500 m² de telhado e consome, em média, 90 m³ de água por mês. "Durante uma chuva forte sobre essa área de telhado caem 150 m³, o que supriria o consumo com sobras ", diz Padin.

A captação é feita por uma calha no telhado que, ligada a um cano, leva a água para o interior de uma caixa de brita que será usada para filtragem. "Este é um dos sistemas mais simples de filtragem: areia fina, areia grossa, carvão e brita", diz Padin. Depois de passar pela filtragem, a água vai para um reservatório cuja capacidade depende do tamanho do telhado e do índice pluviométrico médio da região.


1- O sifão atua como selo hidráulico, evitando a entrada de odores do lado de fora da cisterna. A barreira se faz por uma lâmina espiral ou pelo desenho do próprio sifão

2- O amortecedor evita que a água vinda do filtro entre com muita pressão na cisterna

3- O filtro elimina galhos, folhas e outros detritos, para que a carga orgânica na água estocada seja a menor possível. O corpo do equipamento é feito de polietileno e o desenho do miolo filtrante foi feito para que, em condições normais, somente 5% da água que passa se perca, levando os detritos embora




Veja abaixo a viabilidade de implantação do sistema de aproveitamento de águas

Condomínios horizontais e residências unifamiliares:
o custo de implantação será menor se o sistema for planejado antes da construção. A economia de água pode ser grande, já que a área de telhado é relativamente grande em relação ao número de habitantes, assim, é possível aproveitar uma maior porcentagem de chuva disponível. A instalação é simples, mas, em casas já construídas, convém o uso externo da água, para evitar obras com instalações adicionais, como caixa d'água e tubulações.

Condomínio vertical: apesar de o custo de implantação ser baixo, a economia de água não é grande. Nessas edificações, a área de cobertura é relativamente pequena em relação ao número de habitantes. "Não haverá água de chuva suficiente, por exemplo, para alimentar as descargas", explica Jack Sickerman. No entanto, a instalação é simples mesmo nos prédios construídos, dispensando, em alguns casos, o uso da bomba. A cisterna pode ser substituída por várias caixas d'água no playground ou na garagem.

Galpões e armazéns: após a implantação, o retorno com a economia de água é bastante aceitável. Em galpões, supermercados e shopping centers, por conta da área coberta de laje e estacionamentos, a quantidade de água reaproveitada é grande, o que facilita o pay back do sistema. Muitas obras desse tipo já são obrigadas a prever caixas de retenção. Supermercados e postos de gasolina podem aproveitar a água de chuva em um lava-rápido.

Loteamentos industriais, residenciais e aeroportos: a área do projeto muitas vezes requer a preparação de obras de drenagem e/ou retenção das águas pluviais, e parte desse custo pode ser reduzido ao prever um sistema de retenção e utilização de água de chuva.
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