Reciclagem de concreto | Téchne

Projetos

Gestão de resíduos

Reciclagem de concreto

Edição 77 - Agosto/2003
Além das vantagens econômicas e ecológicas, o reaproveitamento garante benefício técnico: pode substituir até 25% dos agregados convencionais por reciclados sem alterar as propriedades mecânicas



Com a reciclagem de concretos é possível obter agregados com características bastante semelhantes ao produto original, a partir de matérias-primas com custo muito baixo. A contribuição para o meio ambiente também é grande, já que se deixa de extrair o montante de 1.560 mil m³ de matéria-prima por ano, só no Município de São Paulo. O descarte de resíduos de construções também ocorre em grande quantidade. Estimativas do Limpurb (Departamento de Limpeza Urbana) da Prefeitura de São Paulo indicam que são recolhidos por mês cerca de 144 mil m³ de entulho na capital paulista - número que chega a triplicar, segundo estimativas extra-oficiais. Desses materiais descartados, 65% são constituídos de produtos inertes como argamassas, concretos e telhas, possíveis de serem reciclados.

Estima-se que até 10% de todo o material entregue no canteiro de obras é desperdiçado devido à compra em excesso, deficiência no processo de construção, imprecisões ou omissões na elaboração e execução dos projetos, perdas no transporte e armazenamento. Mais de 90% desses resíduos podem ser reciclados e reutilizados. Apenas os concretos com substâncias contaminantes, como sulfato de cálcio, cloretos e óleos podem trazer prejuízo às propriedades do concreto no estado fresco e endurecido, e não devem ser utilizados como matéria-prima.

Os países europeus, devido à pouca quantidade de material primário, tendem a reciclar mais os entulhos. "A Holanda, Bélgica e Dinamarca, que reciclam mais de 90% dos resíduos, precisam importar areia da Sibéria e entulho da Inglaterra", diz Paulino E. Coelho, professor de Gerenciamento de Resíduos Sólidos Urbanos e Industriais, Programa de Educação Continuada em Engenharia, da Poli-USP. O Brasil, onde as técnicas de reciclagem de concreto começaram há cerca de 20 anos, recicla menos de 5% do entulho. A questão tem se limitado aos grandes núcleos urbanos, onde a geração de resíduos encontra problemas crescentes de deposição. Com os locais de depósito cada vez mais escassos, o problema já preocupa os ambientalistas. "É pouco inteligente ocupar áreas valorizadas ou de preservação com um material que pode ser reutilizado", diz Élcio Duduche Careli, diretor da Obra Limpa. "O consolo é que no futuro o gasto com o envio do material para aterro aumentará, e os custos da reciclagem se tornarão mais viáveis", aposta Careli.


Aplicações

É possível reciclar qualquer concreto, desde que seja escolhido o uso adequado e se respeitem as limitações técnicas. Agregados reciclados provenientes de concretos estruturais apresentam melhor qualidade em relação aos agregados provenientes de tijolos cerâmicos e argamassas e podem ser usados em aterros de inertes, obras de pavimentação, agregados para argamassas e até concretos estruturais. No caso de concreto estrutural, é preciso maior acuidade para dosar e especificar o material reciclado. Vale lembrar que o módulo de elasticidade do material produzido poderá ser menor do que aquele verificado para concretos convencionais, enquanto poderá haver aumento da relação água-cimento em função da maior absorção de água dos agregados cerâmicos. No entanto, a mistura entre o agregado reciclado e o agregado normal traz bons resultados. "Uma adição de até 25% de agregado reciclado no agregado normal não influencia a qualidade do produto", afirma Tarcísio de Paula Pinto, consultor de gestão de resíduos da construção.

Existem dois tipos de concreto que podem ser reciclados: resíduos de concreto das centrais dosadoras e, mais comum na reciclagem, resíduos de concreto provenientes de RCD (Resíduos de Construção e Demolição). Equipamentos diferentes reciclam o concreto fresco e o endurecido. Para o concreto fresco são usados lavadores que separam agregados graúdos dos miúdos (veja boxe). Para o endurecido, britadores de mandíbula ou de impacto, com produtividade e partículas resultantes diferenciadas (partículas cúbicas e lineares) fazem o trabalho, com uma grande capacidade de decompor. "Deve-se atentar para não deixar gesso, madeira, metal, cimento e amianto no entulho. O cuidado é uma forma de preservar a qualidade do material reciclado", lembra Tarcísio de Paula.



Sobra da betoneira volta à central e equipamentos separam a água e os agregados para reuso

Estimativas da Abesc (Associação Brasileira das Empresas de Serviço de Concretagem) mostram que somente na região metropolitana de São Paulo são gerados entre 3.500 a 7 mil m³ de concreto residual nas centrais dosadoras. A partir de agora, para associar-se à entidade, a central dosadora deve provar que possui sistema de reciclagem de agregados e tratamento de água. O procedimento consiste na separação do agregado graúdo do agregado fino e no reuso da água que retornou à central. Após o processo de separação, tanto o agregado quanto a água são reutilizados em novas dosagens.

O concreto residual é introduzido no equipamento de reciclagem por meio de uma tremonha de alimentação, permitindo a lavagem simultânea de dois caminhões-betoneira. A lavagem é executada no tambor, que possui espirais que giram no sentindo contrário ao fluxo de água até a chegada do agregado à calha de descarga, já lavado. A água de lavagem com os finos em suspensão é direcionada para um tanque que possui agitadores, propiciando o bombeamento para o sistema de dosagem de novos concretos.

O teor de partículas em suspensão é controlado, como forma de manter uma densidade constante para água residual do tanque. Um outro procedimento, mais simples, é o de decantação. "Chegamos à conclusão de que alguns procedimentos mais caros funcionam tão bem quanto outros mais caseiros", diz Wagner Lopes, diretor-presidente da Abesc.

Tendo em vista a reduzida experiência acumulada, algumas determinações devem ser impostas ao uso de água residual, como a limitação do teor de finos adicionados por meio da água residual (1% a 2%) em relação ao total de agregados do traço. As empresas interessadas em obter mais informações podem consultar o site: www.abesc.org.br
Devido ao menor volume de materiais, a técnica de reaproveitamento na própria obra não exige equipamentos sofisticados. A vantagem da reciclagem in loco é financeira, já que a construtora não precisa se desfazer de um produto pelo qual já pagou. Nesses casos, devido à menor homogeneidade do material processado, recomenda-se o reaproveitamento como agregado para revestimento ou argamassa de assentamento. O procedimento é simples: o material é encaminhado por dutos a uma minicentral de processamento, onde é triturado para ser normalmente utilizado como agregado. É possível também utilizar um moinho de rolo para a trituração.



As centrais de reciclagem contam com maquinários semelhantes aos de mineradoras, como esteiras rolantes, britadores, peneiras e classificadores de granulometria



A reciclagem em centrais especializadas é feita com aparato técnico mais desenvolvido. Essas centrais contam com maquinários semelhantes aos de mineradoras, como esteiras rolantes, britadores, peneiras e classificadores de granulometria. O entulho é separado, britado, lavado, peneirado e classificado. É também facilitada a segregação entre resíduos cimentícios e cerâmicos, sendo garantida a homogeneidade do material. Na Europa são encontrados britadores giratórios e cônicos, trabalhando como secundários, em conjunto com britadores de mandíbula primários. "O resultado dos cônicos e giratórios, como secundários, mostrou um agregado mais limpo, de qualidade superior", diz o engenheiro Salomon Mony Levy, doutor pela PCC-USP e professor do curso de Engenharia Civil e Arquitetura da Uninove. Após a britagem, é possível empregar equipamentos de beneficiamento mineral para fazer a separação, baseados na densidade das partículas via seca (classificador por corrente de ar ascendente) ou via úmida (jigue). Este último conta com a vantagem de reduzir o teor de sulfatos, cloretos e sais solúveis e o teor de materiais pulverulentos nos agregados.

A forma dos grãos é importante, pois exerce influência no volume total de pasta e na plasticidade especificada do concreto. As partículas dos agregados reciclados são mais angulares que as dos agregados naturais. "Os agregados miúdos reciclados no processo de britagem apresentam formas maiores e mais angulosas do que seria desejável para a produção de boas misturas", diz Salomon Levy. No caso de agregados graúdos, o britador de mandíbula produzirá agregados reciclados com distribuição granulométrica ideal para a produção de concretos estruturais. Os britadores de impacto são mais indicados para obtenção de agregados com granulometria maior, utilizados em obras rodoviárias.


No Brasil, concreto reciclado é utilizado como sub-base de pavimentos de concreto ou asfalto, embora em pequena escala. A prefeitura de Jundiaí-SP utilizou a técnica para repavimentar as vias centrais da cidade (acima)
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