Alvenaria | Téchne

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Alvenaria

Edição 86 - Maio/2004
Ligação de paredes com vigas e lajes

A fixação - ou encunhamento - da última fiada de blocos pode parecer apenas mais um detalhe, mas erros nessa etapa podem ocasionar graves patologias


O aprimoramento dos métodos de execução de estruturas e vedações levou à necessidade de alterações significativas no processo de encunhamento das alvenarias. Tal processo consistia em preencher a última camada entre a parede e a laje ou viga do pavimento superior com pedaços de bloco cerâmico ou de concreto. Os fragmentos eram batidos nesse espaço e atuavam, portanto, como uma cunha.

Há alguns anos parecia indispensável que se criasse essa pressão entre os elementos. A justificativa era evitar que a parede não se movimentasse entre os pilares. No entanto, há atualmente registros de casos em que tal técnica, associada à pressão proporcionada pela deformação lenta da estrutura, ocasionou trincas ou rompimento de alvenarias ou revestimentos.

Os fatores que explicam o porquê de as patologias não se manifestarem antes se relacionam diretamente com os desenvolvimentos tecnológicos de outras etapas da construção. O principal é o relevante aumento de resistência do concreto. "Há cerca de 15 anos as estruturas eram menos deformáveis e a transmissão de carga era menor", explica Luiz Sérgio Franco, professor da Poli-USP.

Ou seja, o uso de um concreto mais resistente associado à introdução de ferramentas tecnológicas proporcionou maior precisão ao projeto. Por conta disso, vigas e pilares passaram a atuar com tensões mais elevadas, tornaram-se mais delgados e, conseqüentemente, mais flexíveis. Dessa forma, a estrutura passou a transferir uma carga maior para a alvenaria. A tecnologia e o surgimento de um mercado mais competitivo, em que o uso racional dos materiais é decisivo, modificaram a concepção dos revestimentos. Se antes o revestimento contava 4 cm ou mais de espessura e absorvia parte da carga transferida, agora é mais fino e não pode ser considerado nesse aspecto.

A pressão criada pelo encunhamento somada à movimentação natural da estrutura acaba por ocasionar, invariavelmente, patologias tanto na parede quanto no revestimento.

O aumento da resistência do concreto e outros fatores associados ao projeto elevaram as tensões entre a parede e os elementos estruturais. Por isso, antigos métodos de encunhamento deram lugar a técnicas mais elaboradas, como o uso de EPS em lugar de sobras de blocos



Outro processo
A fim de solucionar o problema sem provocar mudanças significativas de concepção de projeto, pesquisas desenvolvidas na Poli-USP passaram a sugerir que o encunhamento fosse substituído pela simples fixação da alvenaria.

O novo método procura se enquadrar no contexto do projeto. Já prevendo a transferência de cargas, lança mão de materiais flexíveis e versáteis, que possam atuar como elemento de fechamento e, ainda, minimizar a resistência à movimentação da estrutura.

Os materiais mais comumente utilizados são a espuma de poliuretano e a argamassa. A "massa podre", que teve utilização difundida para tal finalidade, pode não ser a melhor opção, conforme alerta Franco. "A massa parte de um princípio correto, mas não funciona e pode estourar o revestimento", explica. No caso, a pressão vertical provoca uma expansão horizontal da massa, que força o revestimento. A espuma de poliuretano, por sua vez, é aplicada quando é possível criar juntas de movimentação - inclusive no revestimento - na posição de fixação.

De forma geral, o método de fixação com argamassa pode ser aplicado. Existem algumas variáveis que impossibilitam ou dificultam a adoção. Dentre essas dificuldades estão as estruturas muito deformáveis (que exigem ligações muito mais flexíveis), as paredes muito grandes e/ou muito altas (que apresentam características próprias de movimentação e dilatação) e as estruturas pré-moldadas (muito deformáveis). Nessas situações, Franco explica que é importante chegar a um acordo com a arquitetura para se obter uma solução tecnologicamente correta.


Fixação prática
A fim de otimizar o processo é importante fazer um projeto de alvenaria. Esse estudo prévio deve compreender todas as situações e realizar um estudo de desempenho da parede. Quando a atenção se volta exclusivamente para a escolha de métodos e materiais adequados às características e exigências da alvenaria é possível prever dificuldades e desenvolver soluções apropriadas.

Um exemplo de adaptação que acarreta aumento de produtividade e diminuição de consumo de material é a compatibilização da altura de paredes com vãos e rebaixos da estrutura. Nesses casos, evitam-se eventuais cortes nos blocos.

A técnica de fixação por si só é eficiente desde que observados alguns pontos relativos à execução. Ao optar pelo uso da argamassa, é essencial aguardar a deformação inicial da estrutura, bem como a absorção da carga e executar a etapa partindo dos pavimentos superiores em direção aos inferiores.

É recomendável que a argamassa seja aditivada com látex polimérico. A intenção é aprimorar a aderência do material com a viga e, assim, evitar fissuras. Ao aplicar a mistura, o ideal é utilizar uma bisnaga. Dessa forma, a incidência de erros é menor. O uso da colher de pedreiro pode acarretar aplicação de uma camada muito fina - e frágil - de massa.

Aplicar a espuma de poliuretano é menos complexo. Esse material é mais flexível e elástico e é aplicado diretamente da embalagem em que é comercializado. É importante observar se a espuma está exatamente na superfície do bloco e em contato com o teto. Após a aplicação, quando do endurecimento do material, basta cortar o excesso.

Argamassas poliméricas são uma boa opção nessa etapa, mas é preciso esperar as deformações iniciais. Em lajes do último pavimento, o mais recomendável é usar sempre materiais bastante elásticos, como o EPS



Cuidados específicos
Embora possa parecer óbvio, a fixação pelo lado externo em paredes de fachada deve ser realizada imediatamente antes da execução do revestimento. Isso porque não é possível aplicar o material por dentro da edificação.

O procedimento em localidades embaixo de lajes e não de vigas é dificultado pela maior flexibilidade do pavimento superior. Algumas empresas, cita Franco, têm executado o contrapiso antes da alvenaria. Isso evita que as deformações gerem ainda mais tensões nas paredes.

O último pavimento merece atenção especial. A maior dilatação da laje da cobertura exige materiais mais flexíveis para a fixação. A espuma de poliuretano é bastante utilizada nesses casos.



Siga as recomendações

Independente do método escolhido é fundamental seguir alguns procedimentos básicos durante a execução da fixação ou encunhamento da alvenaria. Caso não seja respeitada a movimentação da estrutura, mesmo a mais criteriosa escolha do método será prejudicada.

  • Espere o maior tempo possível antes de executar a alvenaria a fim de permitir a livre deformação lenta da estrutura

  • Em uma situação ideal o intervalo de tempo entre o término da execução
    da alvenaria e o início da fixação deve ser de, pelo menos, duas semanas. Esse tempo é suficiente para que a estrutura absorva a carga a que foi submetida e a argamassa retraia, tornando a parede mais resistente

  • Execute a fixação partindo dos andares superiores para os inferiores. Assim, os pavimentos inferiores absorvem melhor as deformações

  • Para evitar camadas muito finas e frágeis, aplique a argamassa sempre
    com a bisnaga, nunca com a colher

  • A fim de evitar esmagamento, não utilize blocos excessivamente frágeis


    Texto original de Bruno Loturco
    Téchne 86 - maio de 2004
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