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Entrevista

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Construção crítica

Texto original de Heloisa Medeiros
Edição 99 - Junho/2005

Fernando Henrique Sabbatini

Professor da graduação, da pós-graduação e do MBA da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo na área de Gestão e Tecnologia na Produção de Edifícios, Sabbatini também exerce a atividade de consultor técnico. Seu trabalho abrange as áreas de desenvolvimento de sistemas e processos construtivos, racionalização e industrialização da produção, implementação de tecnologias em canteiros de obra, gestão do processo de produção de edifícios e diagnóstico e recuperação de patologias. Tem cerca de 100 trabalhos publicados. É criador e coordenador do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento Tecnológico em Construção Civil da USP (CPqDCC-Epusp).



As deformações lentas e as conseqüentes patologias como rompimento de alvenarias e fissuras em revestimentos vêm preocupando construtoras de todo o País. Um dos principais estudiosos do assunto, Fernando Henrique Sabbatini define como epidêmico o período entre 1994 e 2001. O prejuízo para a imagem das construtoras e os transtornos causados aos usuários dos apartamentos foram enormes. Sabbatini já fez cerca de 80 diagnósticos sobre casos como esses e diz ter resolvido os problemas com ações preventivas de escoramento, cura do concreto e procedimentos de execução de alvenaria.

Para o pesquisador, porém, a principal causa ainda não foi atacada. Segundo ele, o concreto teria se tornado uma incógnita e precisa ser melhor estudado. O material, acredita Sabbatini, evoluiu muito rápido, mas suas características foram alteradas de tal modo que não se conhece seu comportamento. Sabbatini conclama o meio técnico, em especial a ABCP (Associação Brasileira de Cimento Portland), entidade fomentadora do desenvolvimento das tecnologias à base de cimento Portland, a fazer um esforço para solucionar os problemas. Sugere uma ampla pesquisa, com diversas instituições, sobre como especificar o concreto e evitar os efeitos da deformação lenta nas novas construções.


Quando começaram a ser observados os primeiros problemas de deformações estruturais?

O primeiro problema desse tipo de que tenho notícia foi em 1985, há 20 anos. Mas até 1993/94, eram casos esporádicos. Algum tempo depois, os episódios começaram a se tornar freqüentes. Como consultor, tenho dezenas de laudos e pareceres sobre mais de 80 edifícios com problemas sérios de estouro de alvenaria e patologias em revestimentos por causa da deformação excessiva. Em 1997, fiz as primeiras apresentações sobre o assunto na Abece [Associação Brasileira de Engenharia e Consultoria Estrutural], no Instituto de Engenharia e no Secovi [Sindicato da Habitação].

O que pode estar causando esses problemas?

Acredito que há uma incompatibilidade, um divórcio entre a estrutura e a alvenaria. Assim que a parede é encunhada, os dois sistemas se casam e passam a trabalhar conjuntamente, em relativo equilíbrio. No entanto, se as movimentações diferidas no tempo (deformação lenta, fluência) forem excessivas, pode ocorrer uma ruptura desse equilíbrio. O fenômeno adquiriu amplitude epidêmica porque as estruturas, de maneira geral, tornaram-se muito mais deformáveis, induzindo tensões nas vedações de uma magnitude tal que as alvenarias não têm condições de absorver.

Existe alguma relação entre a racionalização do processo construtivo e as deformações estruturais?


A racionalização tem um limite e esse limite foi ultrapassado poucos anos após o Plano Real, pois o custo de produção passou a ser um fator essencial para o sucesso dos empreendimentos. Nós, na universidade, incentivamos muito os conceitos de racionalização e conseguimos colaborar para que as estruturas e as alvenarias passassem a ser executadas com maior precisão dimensional. Dessa forma, passou a ser possível executar revestimentos de pequena espessura. Em paralelo, a evolução acentuada dos métodos de cálculo estrutural possibilitou o dimensionamento de estruturas mais esbeltas. Tudo isso trouxe um alívio de cargas muito grande nas edificações, pela redução do volume de materiais empregados. O lado ruim é que as estruturas tornaram-se mais deformáveis e as vedações mais suscetíveis às patologias.

São 20 anos desde as primeiras patologias. Os pontos mais problemáticos já foram identificados?

O fenômeno não é resultado do uso indevido de um material ou de um único subsistema. É preciso fazer um diagnóstico correto do problema patológico, para encontrar a solução. Dos mais de 80 casos de ruptura de alvenarias e revestimento que avaliei, todos eram resultado de deformação lenta excessiva das estruturas. Trata-se de uma conjugação de muitos fatores, mas um dentre todos pode ser considerado o ponto-chave: a cura do concreto. A cura bem-feita ajuda a reduzir muito o potencial de deformação.

Como o senhor chegou a essa conclusão?

Identificamos na prática o problema. Implantamos procedimentos de cura em obras que já estavam parcialmente executadas. Nos pavimentos superiores, onde foi feita uma cura cuidadosa, não ocorreram problemas ou foram de pequena amplitude. Nos demais andares, nos quais não foram tomados os mesmos cuidados, ocorreram rupturas de grande amplitude nas paredes. Outro fator importante é o período em que a estrutura permanece escorada. Hoje, muitas construtoras mantêm os escoramentos por um tempo muito maior, algumas até 28 dias, empregando para isso três a quatro jogos de escoras permanentes. É evidente que em alguns casos a maneira de executar a alvenaria e o revestimento colaboram para agravar o problema. É preciso atualizar esses procedimentos.

Pode-se afirmar que o problema está equacionado?

Ainda não. Temos uma incógnita para resolver: o concreto. Nessa busca de redução de custos, ocorreram mudanças significativas na dosagem dos concretos estruturais nos últimos 12 a 15 anos. Sob o aspecto de custo, essas mudanças foram muito positivas, mas o desempenho global do material endurecido ficou prejudicado. Os fornecedores conseguiram desenvolver um "novo" concreto, que utiliza agregados finos como a areia rosa e pó-de-pedra, com teores de cimento muito menores. Esse concreto atende o requisito de especificação de resistência, mas é diferente.

O concreto mudou?

A tecnologia permitiu desenvolver um concreto com baixo teor de cimento e com teores de clínquer muito menores que os usados até então. Essas alterações podem ocasionar problemas de deformações excessivas em peças que trabalham à flexão e dimensionadas no estádio 2, devido às microfissurações resultantes. Apesar de atender à resistência a compressão especificada, o que pode ser comprovado nos ensaios, esse concreto, que tem menos cimento e uma outra matriz, pode ser mais suscetível à deformação lenta em peças fletidas. Houve também um aumento do teor de argamassa no concreto, pela necessidade de bombear o material e transformá-lo. O quanto essa e as outras alterações interferem na deformação lenta é uma incógnita.


Por que só agora se conhece o problema?

Quando o concreto apresenta baixo módulo de elasticidade, o problema pode ser identificado mais facilmente, pois pode provocar uma deformação instantânea excessiva. Então, a partir do momento em que se ensaia o módulo e se impõe um valor mínimo, consegue-se evitar deformações elásticas inadequadas. Mas a deformação diferida no tempo, conhecida como deformação lenta, continua atuando e seus efeitos se somam. O equilíbrio é alcançado apenas cinco a seis anos depois da entrega da obra. Por isso esse efeito não pode ser avaliado em curto prazo.

Os problemas só vêm depois.

Exato, as alvenarias podem apresentar fissuras ou até romper, porque não suportam toda a deformação induzida pela estrutura ao longo do tempo. Os revestimentos também podem se soltar ou fissurar como resultado da deformação induzida na alvenaria sob tensão. Se forem mais rígidos que a alvenaria, como argamassas industrializadas, a chance de isso ocorrer é elevada. As deformações também podem provocar danos na impermeabilização, tubulações e esquadrias.

Que medidas podem minimizar esses efeitos tardios?

Depende muito dos fornecedores de concreto. Eles continuam dosando o material sem considerar a deformação lenta potencial como uma das variáveis. Esse fenômeno não é avaliado experimentalmente no processo de dosagem. As construtoras sérias sofrem muito com isso, pois quando as patologias acontecem, precisam assumir a responsabilidade e arcar com os prejuízos, por causa da imagem.

Não existe controle dessa dosagem?

As construtoras não têm controle do material que recebem, pelo menos das propriedades que não são avaliadas no recebimento. Quando se compra concreto, especifica-se apenas a resistência à compressão e o módulo de deformação (que avalia a deformação instantânea potencial), mas não se estabelece um parâmetro que limite a deformação lenta. Portanto, é necessário avaliar previamente essa característica. E a liderança nesse processo tem de ser assumida por todo o setor envolvido na produção do concreto. O "novo" concreto com CPIII e agregados finos pode ser muito bom como pode ser uma bomba-relógio. A única certeza é que o desempenho futuro é uma incógnita.

Existem iniciativas para estudar e tentar solucionar o problema?

Recentemente, seis grandes construtoras de São Paulo contrataram um estudo prospectivo junto à Escola Politécnica da USP, que foi conduzido pelo professor Antônio Figueiredo e contou com a minha colaboração e com a do professor Ricardo França. O objetivo era avaliar qual a amplitude de deformação de vigas feitas com esses concretos, após 120 dias do carregamento inicial. Para identificar se os concretos comprados com a mesma especificação de resistência à compressão (30 MPa) apresentavam a mesma deformação lenta, seis caminhões-betoneira foram encaminhados para a Poli, no mesmo dia, e o concreto foi empregado na moldagem de vigas idênticas.

Teoricamente, se comprados com base apenas no parâmetro "resistência", as vigas moldadas com esses concretos deveriam apresentar flechas muito similares. Obviamente isso não aconteceu. As deflexões instantâneas foram similares, mas as flechas finais foram muito diferentes. No extremo, um dos concretos apresentou uma flecha cerca de 80% maior que o menos fletido.

Quer dizer, só a resistência não é suficiente para prever a deformação lenta.

Correto. O problema é: como o construtor pode se precaver contra os problemas se não tem nenhuma informação a respeito das deformações? Se eu conheço qual será a deflexão final de uma viga, posso mudar algumas configurações na alvenaria, como o encunhamento, ou posso empregar uma argamassa mais flexível nos revestimentos. Ou seja, dispomos de mecanismos para controlar o fenômeno e evitar problemas, desde que consigamos prever o que vai acontecer.


Além dessa iniciativa, algo mais foi feito?

O professor Francisco Graziano, associado a outros professores da Politécnica da USP, propôs à ABCP um amplo estudo para avaliar a fluência dos concretos empregados nas estruturas reticuladas de edifícios. Mas a entidade entendeu que isso não era prioritário. Mesmo assim, o grupo contratou consultores especializados para identificar a extensão dos problemas e as causas.
O estudo foi concluído? E qual foi o resultado?

A construtoras insistiram junto à ABCP para estudar o problema, por ser a entidade fomentadora do desenvolvimento das tecnologias de uso do cimento Portland. Solicitaram também que não fossem produzidos concretos com essas características enquanto os estudos não avançassem. Como a entidade não atendeu às solicitações, as empresas e consultores decidiram continuar os estudos prospectivos. Numa segunda etapa, o objetivo é tentar identificar quais variáveis na composição do concreto apresentam maior significância em termos de deformações diferidas. E, se for possível identificar algum fator de grande relevância, ele será divulgado.

E qual a expectativa?

Não devemos ter grandes expectativas, pois o assunto é complexo e apenas estudos prospectivos não são suficientes para gerar conclusões. Entendemos que o mais produtivo seria realizar uma pesquisa ampla, envolvendo diversas instituições, para podermos orientar todo o meio técnico sobre como especificar o concreto e como dimensionar as estruturas conhecendo esse novo comportamento do concreto.

Há notícia desse problema em outros países?

Em outros países o dimensionamento estrutural leva em consideração a deformação lenta, com base em parâmetros normativos. O conhecimento existe, mas talvez não seja aplicável, pois utilizamos um concreto diferente.

Diferente e desconhecido?

Não se pode condenar os estudos que levaram à utilização de agregados hiperfinos no concreto, pois trouxeram benefícios e representam uma evolução significativa na tecnologia de dosagem de concretos estruturais. Nem o uso de cimentos com elevados teores de escória. São conhecimentos importantes que contribuem positivamente quando bem utilizados, mas também podem causar sérios prejuízos.

Isso contraria o caráter científico da engenharia?

Os profissionais que se obrigam a obedecer a um código de ética devem recusar ações que não se fundamentam no conhecimento vigente. Quando a sociedade compra um produto, supõe que é o resultado da melhor técnica e de conceitos cientificamente inquestionáveis. Mas nós sabemos que isso não é verdade, nem possível. Falta conhecer muita coisa. Nos pareceres técnicos que fizemos, conseguimos evitar que se transformassem em demandas judiciais, mostrando que as patologias não resultaram de ações tecnicamente questionáveis, mas eram resultado de fatores imponderáveis, decorrentes da busca pela evolução construtiva.



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